Geral

Visto do verbo ver, não do verbo corrigir!

Sergio Vale da Paixão

Instagram @sergiovpaixao

Quantos “vistos” em cadernos, em trabalhos em grupos e – principalmente –  em redações já recebemos um dia de nossos professores quando éramos alunos(as) da educação básica? Fazíamos as atividades, os cartazes com cartolinas, os trabalhos feitos no papel almaço com capas coloridas e recebíamos, alegremente, o visto do professor.

Revivo a lembrança dessa prática não como algo do passado, mas como ação que continua presente em muitas escolas brasileiras. Esta prática – sem a devida manutenção e cuidados por parte dos professores – não contribui em nada para a aprendizagem dos alunos que se dispõem a participar ativamente do processo de aprendizagem.

Cadernos vistados e boas notas – oriundos da mera entrega das atividades e, geralmente, seguidos de frases de incentivo como “continue assim” – acompanhados com pouca orientação e sem críticas construtivas por parte do docente não colaboram de forma significativa para que crianças e adolescentes melhorem suas produções. A orientação e a crítica são essenciais para que os alunos ressignifiquem suas ações a partir não apenas da “correção” no sentido punitivo e impositivo da palavra, mas das novas direções e reflexões propostas pelos professores a partir do trabalho já realizado.

Em minha prática de trabalho docente com estudantes do ensino médio, tenho obtido êxito quando oriento a reconstrução dos trabalhos ao recebê-los de forma não satisfatória –  com incorreções de escrita, de estrutura e inadequações no que foi proposto a fazer. Seja uma atividade cotidiana, seja uma atividade avaliativa em final de bimestre ou semestre, sempre deixo muito claro a todos que as primeiras entregas das atividades não terão notas. Isso cabe muito bem para as entregas de redação, por exemplo. Elas são chamadas de “primeira versão” do trabalho solicitado. Somente depois de minha “correção” –  recheada de orientações, sugestões e solicitações de alteração –  é que, de fato, receberão notas, já que a atividade foi pela segunda vez entregue a mim com as devidas alterações. Isso é avaliar. É oferecer-lhes a oportunidade de aprender. É uma chance de fazer melhor e corrigir seus erros e não punir os alunos pelo que simplesmente fizeram ou deixaram de fazer.

É na segunda versão do trabalho –  a qual chamamos de refacção –  que existe a oportunidade de reescrever, reorganizar e aprender o que a primeira trouxe de incorreta e “mal-feita”. É na refacção que mais percebo aprendizagens e um trabalho bem feito a partir de minhas considerações como professor. Trata-se de oportunizar a construção da aprendizagem por meio de reflexões sobre o que fizeram ou deixaram de fazer na primeira versão. Isso jamais poderia ocorrer em situações em que o “visto” tenha sido utilizado como sinônimo de correção e aprendizagem. Percebo, com o passar do tempo, que já não são mais necessárias as muitas solicitações de reconstrução de uma segunda versão, já que sabem que –  se não fizerem a contento no primeiro momento –  terão o trabalho de refazerem. Eis, portanto, uma boa avaliação do uso dessa estratégia.

Por essa lógica, a correção das atividades de escrever e reescrever –  após as orientações docentes –  produzirá, inevitavelmente, mais trabalho a todos.

Mais trabalho ao professor, o qual terá todas as atividades para ler minuciosamente mais de uma vez. Além disso, deverá  oferecer orientações na escrita e na fala. Isso fará com que os alunos repensem sobre o que fizeram ou não na primeira versão e, tão logo refaçam,  deverão ler tudo novamente. Por outro lado, mais trabalho aos alunos pelo ato de refazer com atenção a tudo o que foi pontuado pelo professor na primeira versão da atividade.

É esse o objetivo: um trabalho que dê trabalho a todos e, por isso, contribui para o desenvolvimento intelectual daqueles que corrigem e daqueles que são corrigidos.

Tão importante quanto considerar os bons resultados trazidos pelos alunos na refacção das atividades, é essencial a aprendizagem construída no que tange ao “fazer bem-feito” as coisas, em tudo o que se propõem a fazer. Para além de um bom texto escrito, ou de um cartaz bem elaborado, ensinamos o quanto é bom avaliar os erros e melhorá-los em qualquer contexto de nossas vidas, seja na escola ou fora dela. É essa a proposta da Educação Integral, tão discutida nos últimos anos. Ensinamos para além da escrita, aliamos cognição e emoção nas práticas educativas contribuindo para que, a partir do currículo escolar, tenhamos pessoas inseridas socialmente e que sejam felizes.

Minha experiência, enquanto professor na área de linguagens, assegura-me que seja esse o caminho: bastante trabalho nas correções assertivas nas atividades de nossos alunos e não simplesmente “vistarmos” a partir da entrega para buscarmos bons resultados. Devemos evitar a constante reclamação insistente e constante de que “os alunos de hoje não sabem escrever como antigamente”, como é comum entre professores na atualidade. Se temermos o excesso de trabalho, dentro dessa perspectiva ou de qualquer outra que possa ajudar nossos estudantes a serem melhores no que fazem, talvez esteja na hora de repensarmos nosso lugar e nossos afazeres na escola como educadores.

Sergio Vale da Paixão é doutor em Psicologia e professor do IFPR de Jacarezinho. Palestrante e escritor de livros sobre educação e de literatura infantil.

Suas contas em rede social são: Instagram @sergiovpaixao e Youtube: Educar com Paixão

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