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Treinar a criatividade?

Neste mês de março, a revista científica “Annals of the New York Academy of Sciences” publicou o artigo “Um novo método para treinar a criatividade: a narrativa como alternativa ao pensamento divergente” em que trata da possibilidade de se treinar a criatividade.

A criatividade já foi vista como um mistério, os próprios gregos atribuíam a criatividade artística às musas que assopravam nos ouvidos dos seus protegidos. Nos últimos 80 anos, pesquisadores em estudos de criatividade trabalharam para reduzi-la a fatores quantificáveis.

Assim, criatividade seria a capacidade de gerar novas ideias que sejam úteis. Essa visão a valoriza a criatividade nos negócios e na maioria dos contextos sociais como fonte de solução de problemas, inovação e outros resultados práticos. Mas tem sido contestada já que a utilidade pode ser incidental e irrelevante. Muitos cientistas afirmam que a originalidade e suas qualidades associadas (por exemplo, a surpresa) são mais importantes.

A maioria dos que não são acadêmicos percebe a criatividade como sinônimo de novidade. Dessa forma, uma visão alternativa do que seja a criatividade é a capacidade de gerar novas ideias.

De qualquer forma, a criatividade trata a cognição como um meio de gerar ideias e, portanto, modelos, relações, representações e padrões. E a narrativa cognitiva como sendo um mecanismo para gerar ações (efeitos). Assim, uma abordagem narrativa da criatividade tende a gerar resultados úteis sem exigir uma ênfase explícita na utilidade, livre das inibições, pressões e restrições impostas pela demanda de corporações, escolas e outras instituições.

As organizações investem centenas de milhões de dólares anualmente em treinamento no pensamento divergente e práticas relacionadas, como, por exemplo, em tradução livre: jogo combinatório, fluência associativa, raciocínio analógico, conjuntos multiuso, ensino de design, brainstorming e previsão de inovação.

A teoria narrativa nasceu em 335 a.C. com Aristóteles em sua Poética, sendo atualizada e expandida por estudiosos modernos, levando à sua adoção por organizações como a Sociedade Internacional para o Estudo da Narrativa, que abrange campos da literatura, política, engenharia e ciências biológicas. O objeto de investigação da teoria narrativa é a arte narrativa, isto é, o catálogo histórico de ferramentas inventadas por contadores de histórias para gerar sequências de causa e efeito na mente do público. A teoria narrativa pode ser usada para criar novas técnicas de treinamento e avaliação de criatividade que visam metodicamente os processos fisiológicos do cérebro para gerar uma ação original.

O novo treinamento pode ser dividido em três categorias de técnica narrativa: construção de mundo, mudança de perspectiva e geração de ação. Procuram refletir o desenvolvimento das prioridades evoluídas do cérebro humano, ou seja atenção a novos lugares (como fontes de ameaças e perspectivas ambientais), a novas pessoas (como concorrentes e aliados) e a novos eventos (como potenciais perigos e oportunidades). O artigo é um prato cheio para interessados no assunto.

Mario Eugenio Saturno (cientecfan.blogspot. com) é Tecnologista Sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e congregado mariano.

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