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TUDO TEM SEU NOME CERTO

COLUNA CARLOS BRICKMANN


Comecemos repondo as coisas em seu devido lugar, com seus devidos nomes. Não há qualquer greve na Polícia Militar do Ceará. Há motim, e isso é crime. O senador Cid Gomes não estava tentando repor a ordem na cidade de sua família, Sobral, ao assumir o comando de uma retroescavadeira para tentar derrubar as portas do quartel da PM: estava irregularmente pilotando um equipamento para o qual não é habilitado, com fortes probabilidades de matar quem estivesse em seu caminho – além de provocar dano ao patrimônio público.

Em suma, todos errados. Uma corporação armada pelo Estado, com monopólio do uso da força, não pode usar essa força para se impor ao Estado. E os amotinados sabiam disso, tanto que vários usavam máscaras para não ser reconhecidos. Não é apenas uma teoria: é a Lei. A Polícia Militar é força auxiliar do Exército, e militares são proibidos pela Constituição de paralisar suas atividades. Mais? O Supremo reafirmou que a proibição vale para todos os agentes de segurança pública. Quanto ao tiro, há quem defenda a tese de que houve legítima defesa, para evitar o atropelamento pela retroescavadeira.

Se a lei é clara, o motim já é descaramento. O motim, não: os motins. Nos últimos dez anos, houve mais de 30 “greves” de bombeiros e de policiais militares. Em todos os casos, claro, era motim. E tudo ficou por isso mesmo: em 2011 e 2015, o Congresso aprovou duas grandes anistias para bombeiros e policiais militares amotinados.

É proibido. Mas, como vemos, pode.

Carnaval

Meninos, eu vi: um dirigente de partido de esquerda tentando passar com retroescavadeira por cima de assalariados que queriam ganhar mais

Deixa o barco correr

Há gente no Congresso ofendida com uma declaração do general Augusto Heleno (que imaginava não estar sendo ouvido) a respeito dos parlamentares: “Não podemos aceitar esse pessoal chantageando a gente”. O ponto final da declaração, aliás, é um selo de autenticidade bolsonarista: um palavrão.

Os fatos: um acordo, negociado pelo secretário de Governo, general Luiz Eduardo Ramos, garantia que a aceitação dos vetos do presidente Bolsonaro à Lei Orçamentária aprovada pelo Legislativo. Com os vetos, a lei se tornaria mais palatável ao ministro da Economia, Paulo Guedes, e liberaria uma boa parte do Orçamento para que o Executivo decidisse o que fazer. Aí vem a declaração do general Augusto Heleno. Irritação do Congresso, tudo bem; faz parte do jogo. Mas o que parece ter passado despercebido é que um dos generais do Governo se colocou frontalmente contra o trabalho do outro.

Como os generais Ramos e Augusto Heleno porão em ordem suas relações e sua posição quanto ao que o Governo pode ou não aceitar?

Tudo volta ao normal

Alguns parlamentares mais exaltados dizem que, pela opinião que expressou, o general Augusto Heleno trabalha contra a democracia. Ah, que falta faz conhecer a História do Brasil! O general Augusto Heleno era ajudante de ordens do ministro Sílvio Frota, duro entre os duros, que fez o possível para minar a já lenta transição do regime militar para a democracia. Frota foi demitido pelo presidente Geisel (e, sem êxito, tentou derrubá-lo).

Com Frota, foi demitido, entre outros, o capitão Augusto Heleno.

Deixa o barco correr

Correm rumores de que o presidente Bolsonaro anda meio desiludido com a economia: há alguns êxitos, há aplausos de economistas brasileiros e estrangeiros às ideias de Guedes, mas o desemprego continua altíssimo e o desenvolvimento econômico continua lento. Os comentários, que chegaram a ser publicados em diversos jornais, são de que Guedes teria até o fim deste ano para obter crescimento superior a 2%.

Se é assim, Guedes pode continuar a usar os holofotes oficiais para revelar que muitas domésticas viajam para a Disney ou que “a mãe de seu pai” (que outros chamariam de “avó”) foi doméstica. Tudo indica que o crescimento ultrapassará os 2%, mas por bem pouquinho. De qualquer maneira, esse número mágico o salva da demissão.

Deixa o dia raiar

Escapar de ser demitido não significa, entretanto, manter-se no posto. Há também rumores de que Paulo Guedes já se cansou de ser o Posto Ipiranga, que como um bom posto de combustíveis não sai do lugar. Sua reforma administrativa está há um bom tempo nas gavetas do Governo, sua reforma tributária também não se move, e ele corre o risco de ver o Congresso votar projetos que já estão por lá, mas que não são os de seus sonhos. E frases como uma das últimas de Bolsonaro, de que “por ora Paulo Guedes continua” ou de que ele “não pediu para sair” podem levá-lo a ir embora.

No fundo, Bolsonaro fez como o cartola para quem o técnico “está prestigiado”.

O que você pedir eu lhe dou

O fato é que o mútuo encantamento já não existe entre o presidente e Guedes. Apesar dos riscos de instabilidade se o ministro sair, é provável que Bolsonaro não resista a um pedido de demissão.

E seja o que Deus quiser.

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