Destaque Policial

Quase três anos depois, famílias de vítimas da PM esperam por justiça

Famílias dilaceradas pela dor! Único sobrevivente de execução policial virou deficiente físico

Da Redação

Eram três garotos cheios de sonhos. Todos tinham como profissão a mecânica de automóveis e mudaram-se da pequena Jundiaí do Sul, no Norte Pioneiro do Paraná, para Curitiba, em busca de alargar o horizonte profissional. Decidiram na tarde daquele sábado (24 de setembro de 2016), matar a saudade de suas famílias e curtir o clima festivo de uma eleição municipal agitada.

Bruno Henrique Santana Conde, 25 anos, Júlio Cesar Francisco Correa, 23 anos, e, Danilo Moraes de Pontes, 28 anos, eram garotos normais, sem nunca terem passagem pela polícia. Um quarto ocupante do carro, Claudinei Pereira da Silva, 25 anos, que pediu carona momentos antes do início da viagem, não fazia parte do rol de amizades dos garotos. Era apenas conhecido, mas sem detalhes de sua vida pessoal.

Se soubessem que Claudinei era foragido da polícia por conta de ameaças contra um policial militar de Ribeirão do Pinhal, através de uma postagem feita em redes sociais, seguramente não teriam dado carona ao rapaz. Ele apareceu na internet portando uma pistola e fazendo ameaças ao PM. Ali estava decretada sua pena de morte e, com ele, levou dois garotos inocentes e deixou outro com sequelas graves que irão acompanhá-lo pelo resto da vida.

Esse massacre cometido contra quatro jovens por alguns integrantes do 2º BPM de Jacarezinho foi comandado pelo coronel Antônio Carlos de Morais, que hoje ocupa o segundo posto na direção-geral da Polícia Militar do Paraná. Vale assinalar que dos 12 PMs que atuaram no massacre, três deles não disparam contra o carro em que estavam os jovens.

Apesar da gravidade da tragédia, quase três anos depois, de concreto só a dor das famílias com a perda de entes queridos. Revoltado, o pai de Danilo Pontes, o cabo aposentado da PM, Antônio Pontes, o Tunicão, como é mais conhecido, procurou a Tribuna do Vale para cobrar das autoridades do Paraná uma resposta para o que chama de execução sumária.

Claudinei Pereira da Silva era o único com passagens pela polícia entre as vítimas

“Durante todo esse tempo fui chamado para depor uma única vez, o mesmo aconteceu com o meu filho. Tenho dentro de casa um filho traumatizado, com sequelas dos 22 tiros que recebeu pelo corpo. O braço direito foi destroçado por uma bala que lhe tirou os movimentos para o resto da vida. Eu pergunto: cadê a resposta das autoridades? Dizem que o Gaeco, esse órgão do Ministério Público, assumiu as investigações. Nem eu, nem meu filho, nunca fomos chamados para contar a nossa história”, desabafou Tunicão, num lamento emocionado.

Para o cabo aposentado, pelo relato que o coronel Morais fez em depoimento que prestou à Polícia Civil, Claudinei Pereira da Silva, o jovem que pediu carona, vinha sendo monitorado pelo serviço de inteligência da PM e, pelas circunstâncias dos fatos, estava marcado para morrer. Na cópia do depoimento do militar, ele diz que foi comunicado pela P2 que, um veículo Celta, de cor prata, provavelmente com três ocupantes (na verdade eram quatro), estaria se deslocando em direção à Jundiaí do Sul e que esses estariam armados com intenção de promover roubos na região. 

Por conta dessas informações, segundo Morais, foi montado o esquema policial com participação de integrantes das equipes Rotam e Canil, que fizeram um bloqueio na PR-218, que dá acesso ao perímetro urbano do município.

Num desabafo, manifestando sua revolta, o pai da única vítima sobrevivente questiona o depoimento de Morais, assinalando que, se no interior do carro havia elementos armados e dispostos a cometerem assaltos na região, porque não foram abordados nas três oportunidades em que passaram por duas guarnições da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e uma da Polícia Rodoviária Estadual (PRE). “Deixaram para fazer a abordagem em Jundiaí do Sul, porque ali não tem câmeras, nem testemunhas. Esta é a senha para matar”, extravasa.

Em tom de revolta, o pai de Danilo Pontes questiona o depoimento de Morais sobre a ação policial

Tunicão conta que o filho dirigia o carro. A partir de Ibaiti, segundo relato do comandante Morais, uma viatura descaracterizada do serviço reservado passou a monitorar o veículo com os quatro rapazes. A cerca de dois quilômetros da cidade de Jundiaí do Sul, os ocupante foram surpreendidos pelo bloqueio da PM. Eram duas viaturas tipo Chevrolet Blazer em posição de cunha e 12 policiais armados com pistolas e fuzis. Neste momento era pouco mais de uma hora da madrugada.

Danilo Pontes conta que Claudinei Pereira da Silva, o único com pendências com a polícia, em visível pânico, contou que era procurado pela justiça. Como ali ninguém estava armado, o sobrevivente diz que aconselhou o passageiro a se entregar. Neste momento um PM aproximou-se do carro com uma lanterna, iluminou o rosto de cada um e, ao perceber que ali estava quem procuravam, afastou-se, tomou posição e uma saraivada de balas disparadas de armas de grosso calibre, foi dilacerando os corpos das vítimas.

Único sobrevivente do chama de execução, Danilo Pontes diz que até hoje não foi ouvido pelo Ministério Público

Danilo conta que foram cerca de 40 segundos de tiroteio intenso. Ele acredita que se salvou porque projetou seu corpo para trás, ficando no vão das poltronas da frente. O rapaz foi alvejado 22 vezes, atingido no abdômen, braço direito, que o deixou atrofiado, do lado direito do peito, que ricocheteou numa costela e atingiu a bexiga, nove tiros na perna esquerda, sete na direita, três nas nádegas e três no intestino.

Após verificarem que havia um sobrevivente, Danilo conta que os PMs ordenaram que ele saísse do carro. Apesar de gravemente ferido, conseguiu sair pela porta do passageiro. Deitado no chão ele conta que foi reconhecido pelo comandante da operação, coronel Morais. “Ele se aproximou, virou meu rosto com os pés e disse: ‘olha aqui seu vagabundo, vê se honra a farda que seu pai usou’. Em seguida desferiu um pontapé contra meu corpo”, conta.

A sequência dos fatos repete cenas de outras tragédias: três armas, uma pistola Glock e dois revolveres calibre 38 teriam sido encontrados no carro, mas a perícia constatou que armas não foram disparadas. Referindo-se à pistola Tunicão desabafa: “Em 25 anos como policial militar, nunca manuseei uma arma desta qualificação. E vem esse povo falar que tal arma pertencia àqueles moleques!”

Escândalo

O caso de Jundiaí do Sul revela-se um escândalo. Quase três anos depois da tragédia as autoridades são incapazes de dar uma resposta à sociedade, mostrando o quanto são banais as execuções envolvendo policiais. Isso revela ainda uma cumplicidade vergonhosa, de um Estado ineficiente e de uma população refém, que começa a esboçar reação.

Sem resposta

O coronel Antônio Carlos de Morais não se comunica com a Tribuna do Vale. O jornal informa que o espaço para sua defesa está aberto, bastando encaminhar sua resposta à redação ou convocar a presença da reportagem no local que definir.           

Deixe um Comentário