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O trem, dívida com a sociedade

Dirceu Cardoso Gonçalves


A implantação do trem de passageiros intercidades, anunciada em campanha pelo governador paulista eleito João Dória e confirmada depois das eleições, traz uma nova esperança de desenvolvimento a dezenas de localidades previstas para a operação dessa nova versão do tradicional meio de transporte. O sistema deverá ligar São Paulo e área metropolitana às regiões de Campinas, Baixada Santista e Vale do Paraíba, e será operado através de parcerias público-privadas (as PPPs), já havendo empresas chinesas, do Oriente Médio e da Espanha interessadas em nele investir. O trem, moderno e eficiente, reduzirá o tempo de locomoção da população trabalhadora, evitará o estresse e , de quebra, ainda diminuirá o número de veículos nas ruas e rodovias. Além do plano próximo à metrópole, tende a ser sucesso se também estendido a outras regiões e incluir, até, trens urbanos nas principais cidades interioranas, onde já existem linhas e vocação ferroviária.

A estrada de ferro – é bom lembrar – foi a indutora do desenvolvimento na maior parte do Estado de São Paulo e de outras regiões do país, inicialmente implantada pelo capital privado dos plantadores de café e, depois, encampadas pelos governos mediante pressão dos trabalhadores motivados pelos movimentos de esquerda. Com o passar do tempo, a administração estatal foi postergando a manutenção e ignorando as metas de modernização até deixar o sistema inviável e em colapso operacional. Os últimos investimentos em retificação de traçados deram-se nos anos 70 do século passado, mas o abandono levou tudo – especialmente os trens de passageiros – a parar nos anos 90, justamente quando o PSDB assumiu os governos da União e de São Paulo, com sua política privatista, que naufragou nesse setor. Há, até, quem acuse os governantes de tentativas de favorecer o ramo rodoviário, o que é difícilprovar.

O sistema, antes misto de cargas e passageiros, ficou restrito ao transporte de cargas e muitos trechos hoje estão intransitáveis. O grande patrimônio de estações, armazéns, oficinas e até a linha eletrificada ficaram ao abandono e tiveram muito de seus equipamentos furtados. Locomotivas e vagões foram abandonados e apodreceram. Hoje a ferrovia, outrora fator de desenvolvimento, tornou-se um estorvo na maioria das localidades por onde passa. Candidatos de situação e de oposição pregaram em campanhas a volta do trem de passageiros, que até agora não saiu do papel. Até o ambicioso Trem Bala, que o governo federal pretendida implantar entre Campinas e o Rio de Janeiro, não foi além, apesar de até hoje existir uma companhia estata l para essa finalidade, que custa caro aos cofres da União e deverá ser extinta pelo novo governo.

O trem precisa voltar a fazer parte do sistema brasileiro de mobilidade. As nossas rodovias estão saturadas por tantos caminhões que atravessam o país levando cargas que deveriam seguir pelo trem e o transporte fluvial, de custos absolutamente inferiores. Espera-se que os novos governos tenham condições de reativar a ferrovia nos seus diferentes segmentos, saldando assim a enorme dívida que governos imprevidentes, acumularam com a sociedade. E que o façam antes que o sistema rodoviário entre em verdadeiro colapso…

Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves – dirigente da ASPOMIL (Associação de Assist. Social dos Policiais Militares de São Paulo) 

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