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O policial pede socorro

Dirceu Cardoso Gonçalves


“Não é normal o que os policiais vêem, ouvem, cheiram, tocam e experimentam todos os dias… Não é normal carregar a carga emocionalmente, fisicamente e mentalmente… ver cadáveres, corpos mutilados, em decomposição.

Crianças mortas, vítimas de abuso, sem teto, sofrendo. Pessoas vitimadas, estupradas ou mortas”. Essas afirmações fortes estão contidas num áudio que circula pelas redes sociais, cujo autor se identifica como policial.

Desfila as agruras vividas pela classe, que atua em situações extremas e, até desumanas, e ainda tem de permanecer na estressante condição de alerta absoluto pois além de trabalhar em escala rotativa, sem feriados, aniversários, horas-extras e direitos adicionais e não ter a certeza nem  de terminar a jornada e poder voltar para casa, precisa se guardar porque, pelo simples fato de ter a palavra “polícia” escrita na viatura e na farda, pode ser alvejado e perder a vida.

Ser policial é para vocacionados e, com certeza, a maioria da tropa o é. Não fosse assim, jamais suportaria tanto o regulamento funcional e disciplinar rígido quanto as adversidades de uma sociedade convulsionada como a nossa se tornou.

Por cumprir sua tarefa de restabelecer a ordem – último reduto, só acionado depois que todos os demais falharam – o policial se torna alvo dos marginais e, o mais lamentável, também dos aproveitadores político-ideológicos que vivem sob esquemas de segurança mas fazem questão de demonizar a atividade. Seu trabalho enfrenta a represália dos criminosos (cada dia mais impunes e ousados) e a campanha dos contumazes inimigos da polícia, que investem na sua criminalização e com isso buscam lucro político e institucional.

  Melhor seria que os três poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário – mais a Sociedade Civil, estabelecessem um protocolo para a atuação do policial. Isso evitaria o cometimento de excessos e a punição mas, com certeza, levaria a comunidade ao caos, pois cada ocorrência é um caso autônomo e imprevisível.

O crime é criativo e inesperado, até para poder subsistir. O policial precisa, a partir do seu treinamento, ter discernimento e amparo legal para aplicar o que aprendeu na formação. Sem isso, todos estaremos perdidos e o crime (que não cumpre leis nem regulamentos) evoluirá.

  O policial não pode ter receio de abordar suspeitos e nem de liberá-los quando as suspeitas não se confirmam. Quando o suspeito corre, é seu dever perseguir e conter, mesmo que isso leve a fatos adicionais, que devem ser modulados pelas próprias corporações. O policial contido e temente a represálias ou punições, não cumpre sua missão e quem sofre é a população carente de seus serviços.      

 “Não espere reconhecimento daqueles que não conhecem o cheiro da pólvora ou o calor dos incêndios” – aconselha o coronel Marcelo Vieira Salles, comandante da Polícia Militar de São Paulo, em mensagem à tropa. Por hábito, o soldado não aspira o aplauso.

Mas espera contar com a compreensão e, se possível, o respeito, principalmente quando é levado pelas circunstâncias a empregar a força para conter o mal maior. Não é normal, nem inteligente, setores da sociedade tentando imobilizar quem, por dever de ofício, é o encarregado de sua segurança…

Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves – dirigente da ASPOMIL (Associação de Assist. Social dos Policiais Militares de São Paulo) 

[email protected]                                                                                                     

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