Editoriais

O Chefe de Estado e a Moral

Amadeu Garrido de Paula*


Inúmeros caracteres diferenciam o Chefe de Estado do Chefe de Governo. A mais provável distinção reside na capacidade do primeiro de elevar seus pensamentos aos pontos mais abstratos. Em outras palavras, de abstrair a vontade do político para dar curso às determinações advindas do sentido da Polis.

O que percebemos no atual governo brasileiro é a predominância da rasteira vontade política sobre a altaneira vontade do Estado. O fenômeno está muito nítido quando se volta atrás em relação a uma decisão que pode ser considerada menos política e mais estatal. Serviria à concórdia nacional, pelo menos ao demonstrar uma tíbia manifestação no sentido de um dia nossa sociedade convergir a um pacto político, única fórmula capaz de engendrar a superação destes momentos terríveis. E quando, para exemplificar e propor o contrário, cai-se na própria expansão da sordidez.

A raiz do erro reside numa concepção teológica. “Deus acima de todos”. É a concepção de um Deus antropocêntrico, com o qual dialogamos, do qual somos sua imagem e semelhança. Ele nos pune e perdoa. É o único, portanto, a quem devemos prestar contas, por meros interesses egoístas. Não devemos nada aos outros homens, somente à figura divina. Não somos todos, homens e Deus, a plenitude. Basta que eu ou você tenhamos a graça do Senhor. Pouco importam os que não a tem; que se lasquem. Não os toleremos e tampouco perdoemos.  O PT também quer ser único, angelical. Lembram-se? “Nós, do PT…”.

É a teologia tradicional. Muito distante da religiosidade cósmica, que empolga os mais modernos cientistas e obteve admirável síntese da lavra de Einstein. Religião que se encontra em alguns Salmos de David, São Francisco de Assis, Demócrito, Schopenhauer, Spinoza, segundo o físico dos físicos, para quem nenhum pensamento científico isolado, que necessariamente há de se engrenar com a sociedade, poderia ser profícuo sem o “insight” da religião cósmica, cujo ponto fundamental reside em nosso amor social, por todos os homens, não numa referência individual e isolada a um ser supremo.

A moral social é o traço distintivo do compromisso cósmico, portanto. De seu tecido emergem todas as forças que movem o mundo e o universo. Nas palavras de Einstein, “A religiosidade cósmica prodigaliza tais forças. Um contemporâneo declarava, não sem razão, que em nossa época, instalada no materialismo, reconhece-se nos sábios escrupulosamente honestos os únicos espíritos profundamente religiosos”.

Segue-se, voltando ao início, que não é estadista aquele que não tem a compreensão, “mutatis mutandis”, do verdadeiro religioso, amante do saber e dos outros homens. O humanismo, a ética social, é o que se põe no lugar das crenças egoístas, voltadas somente para nós  e nossas famílias. Consequentemente, falar em Deus, enquanto se dissemina o ódio pelas redes sociais, sem respeitar-se até mesmo a morte de um menino de sete anos, com o fizeram os filhos do Presidente (a quem ele ora apoia, ora desautoriza, numa gangorra jamais observada até hoje na história brasileira, mesmo quando sob a família real), é uma religiosidade rasteira que embala absoluta ignorância do que seja a crença científica, cósmica – e do Estado. Dar os pêsames ao adversário – ou inimigo – é um gesto que não sensibiliza os falsos profetas e estadistas.

*Amadeu Garrido de Paulaé Advogado, sócio do Escritório Garrido de Paula Advogados.

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