Policial

No 5º mês da morte de Andrei, investigações continuam paradas

Juiz militar que determinou vários arquivamentos de inquéritos que apuravam ações de PMs foi afastado das funções

Andrei Francisquini foi morto por policiais militares no dia 12 de maio
CRÉDITO: Arquivo

Da Redação


Neste sábado, 12 de outubro de 2019, completam cinco meses da morte do jornalista Andrei Gustavo Orsini Francisquini, em um suposto enfrentamento com policias militar, no início da madrugada de 12 de maio, Dia das Mães, na Praça da Espanha, centro de Curitiba. No entanto, as investigações que apuravam as circunstâncias do episódio estão paradas no 3º Distrito Policial da Capital, aguardando julgamento de um recurso do Ministério Público Estadual (MPE), que tenta reverter sentença do juiz da Vara Militar, Sergio Bernardinetti, que determinou o arquivamento do inquérito policial que investigava o caso.  

O mesmo magistrado também determinou arquivamento de outro inquérito da Polícia Civil da comarca de Ribeirão do Pinhal, que apurava as circunstâncias das mortes de três rapazes e graves ferimentos em um quarto jovem, igualmente num suposto enfrentamento com policiais militares, fato ocorrido em setembro de 2016, há mais de três anos.

Por conta da atuação de Bernardinetti em outros inquéritos que apuravam a ações de PMs em supostos confrontos, o magistrado foi afastado de sua funções, segundo fontes do judiciário, por emitir decisões que contrariaram julgamentos do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Caso vergonhoso

O caso de Andrei Francisquini é daqueles episódios que envergonham e lançam o nome da instituição Polícia Militar num mar de lama. Foi um festival de absurdos que a família do jovem jornalista prefere não acreditar em execução sumária.

Pouco depois da meia-noite Andrei estava no interior de seu carro, estacionado na Avenida Vicente Machado, a algumas centenas de metros da Praça da Espanha, provavelmente teclando no celular. Neste momento uma viatura da Polícia Militar passou pelo local e os agentes perceberam a presença do veículo estacionado e o condutor deu ré para conferir a placa. Percebendo a aproximação de dois PMS, Andrei deu partida e saiu do local, sem empreender velocidade.

Com o afastamento do carro do rapaz, os dois policiais sacaram de suas armas e desferiram cinco tiros em direção a Andrei Francisquini, que a partir de então aumentou a velocidade. O advogado Paulo Cristo, que acompanha o caso a pedido da família, acredita que um dos projéteis atingiu o ombro da vítima.

A partir de então Andrei acelerou o carro, sendo seguido pela viatura que acionou outras unidades. Na Praça da Espanha ele teve a passagem obstruída por uma viatura que atendia outro caso. Tentou dar marcha à ré, mas percebeu que a passagem estava obstruída por outras viaturas. A partir de então foi decretada a morte do rapaz, que levou vários tiros deferidos por três PMs.

A motivação para os tiros fatais foi que o jornalista estaria de posse de uma pistola de grosso calibre e que estaria manuseando a arma. Perícias comprovaram que não havia impressões digitais de Andrei na pistola, e muito menos nos cartuchos e carregador, atestando que a vítima não pôs a mão naquela arma.

Outro detalhe intrigante: a Polícia Militar do Paraná, em seu Boletim de Ocorrência omitiu a ação dos policiais na Avenida Vicente Machado. Simplesmente “esqueceu” de citar uma abordagem em que desferiu cinco tiros, que acabou ferindo um rapaz que estava a metros de distância do local, que acabou sendo levado ao hospital e, na sequência registrado boletim numa delegacia.

Há uma série de situações que põe em suspeição a condução do caso. Funcionários da empresa que presta serviços de monitoramento para a PM estiveram na Praça da Espanha na tarde de segunda-feira, um dia após o episódio. Eles permaneceram por mais de 50 minutos manipulando as câmeras instaladas em um totem da corporação e que teriam monitorado o que aconteceu no local.

É uma série de ocorrência que põe por terra as alegações da PM para justificar a ação dos policiais. O Inquérito Policial Militar (IPM) foi arquivado pela Corregedoria da instituição. O Inquérito da Polícia Civil foi igualmente arquivado pela Justiça Militar, numa demonstração de corporativismo constrangedor.

O que a família de Andrei Francisquini espera é que o Tribunal de Justiça do Paraná (TJPR) devolva ao 3º Distrito Policial a possibilidade de desvendar tudo o que ocorreu naquela madrugada fatídica, impedindo dessa forma que mais uma tragédia humana seja soterrada no esquecimento da história.    

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