Editoriais

Janot

* Amadeu Garrido


Ainda tenro ele sonhara com a República. Miscigenava-a com o território, com a sociedade. As injustiças eram evidentes. Ignorava se deveria dizer proletariado, descamisados, excluídos, simplesmente pobres. Ele se livrara dos agrestes, mas sentira nas ingratas imaginações seus espinhos perfurantes.

Conhecer o Direito possibilitara desvendar muitos mistérios. Eram moradores das instituições. As campanhas políticas, monótonas, sempre produziam resultados monótonos. As teorias jurídicas reclamavam leis e estas, não raro, nasciam mortas e tentavam viver como sonâmbulos. Uma filha parecia preencher a república vazia. O sentimento próximo supria a solidariedade aos distantes.

Fizera-se o principal advogado da tão sonhada república. Mas o sonho não tinha passagem. Aproximara-se do Direito dos entroncamentos sociais, mas este era representado por outros, grudados à burocracia que se usava como ferramenta do injusto.

Naquela noite não dormira. Passara somente as mãos sobre o revólver, que a função lhe garantira. Perder ambos os sentimentos lhe parecia insuportável. Algo precisaria explodir como nunca em sua sempre desgastada aldeia.

O dia seguinte era sessão plenária. Ele estaria lá. Quando deveria dar vazão completa à insanidade? Sim, sabia ser ato insano, mas o valorava. Tinha de atear fogo à suposta floresta encantada. Pensou em procurar socorro médico, mas permaneceu imerso em sua solidão. Não seria encerrada a sessão, não haveria a de quinta, aquela noite seria a mais agitada de toda a história.

O salão não ouviria mais passos perdidos. A noite se precipitaria à tarde. Mas quando? Tinha dúvidas. Antes do início, pareceria uma covardia, uma emboscada. Era melhor que o deixasse iniciar seus costumeiros agravos – pelo menos assim lhe pareciam suas intervenções. Pediria um aparte. Este seria o disparo fatal. Em seguida também garantiria que não veria o futuro. Nunca estivera tão perto de seus antepassados e distante de sua filha agravada.

Por isso não disparou. O ato deveria ser simbólico, terrível, inesquecível. O sangue dos oficiantes do direito, comum, coagulando. As togas marrons, o alvoroço dos desesperados, as comunicações incontinentes pelo mundo afora. A imagem de Cristo ao centro pareceria chorar, mas o mundo se faz de colisões imensas e o crucificado sabia disso. Shakespeare não imaginara essa tragédia, por isso não fora eterno.

Não houve provocação e pedido de aparte. O teatro deveria ficar para a sessão seguinte. Foi o tempo suficiente para, ao segundo crepúsculo, conseguir domar seu cavalo bravio vindo do mais fundo inconsciente, para resgatar suas filhas: a república e o produto de seu sangue.

Anos mais tarde confessaria seu desatino tresloucado. À dominação do inconsciente selvagem atribuiria uma mão divina. Sua morte moral estava selada, e nenhum dos dois destinos filiais iria sofrer qualquer espécie de mudança. Às noites os passos voltariam a produzir seus ecos pausados e atemorizantes no salão das regras soberanas.

* Amadeu Garrido de Paula é jurista do escritório Garrido de Paula Advogados.

Deixe um Comentário