Editoriais

Há esperança?

Por que vês tu o agueiro no olho do teu irmão e não vês a trave no teu próprio? Mat., VII,3.

Amadeu Garrido de Paula


Só superaremos a tempestade perfeita e o torvelinho que agita fortemente nosso povo mediante sólido pacto social e político.

A transição democrática empreendida em paz dá-nos segura ideia de tal possibilidade.

Primeiramente, solapou-nos um governo populista de esquerda. Não criou nenhum socialismo, não atacou as elites produtoras, não teve como objetivo travar o crescimento de nossa economia e tisnar a economia de mercado.

Entretanto, incorreu em erros que resultaram na maior crise de nossa história. Não soube perceber, a tempo e modo, a ameaça econômica presente nas densas nuvens negras que se originaram da enorme crise do capitalismo do ocidente.

Nela ficou evidenciado que a riqueza mundial era composta majoritariamente de papéis podres. Leviandade bancária das hipotecas estremeceu seu centro nevrálgico. Os raios e trovões se espalharam por todo o corpo econômico do sistema. Manchetes da mídia principal do orbe chegaram a anunciar o fim do capitalismo. Ainda sem sentir seus efeitos no Brasil, nossa governança equivocada qualificou o tsunami como marolinha e expressou pena dos loirinhos de olhos azuis. Isso de entremeio a um vendaval de corrupção inédito em nossa história. Jamais tivemos importantes políticos, um ex-presidente da república, e, no campo privado, as mais reputadas lideranças empresariais, encarcerados.

Para arrematar, o impeachment de uma Presidente centralizadora que castigou mandamentos jurídicos elementares, seguida de um governo de transição que se revelou um lastimável fiasco.

Não demorou muito para que o embate entre duas correntes ideológicas e, precisamente por serem ideológicas – esquerda e direita -, conceito superado, empunhassem suas lâminas afiadas. O dualismo do confronto tomou conta de toda a vida nacional, desde os lares, passando pelas escolas e contaminando os debates mais aculturados. O radicalismo, que se imaginava superado pelo avanço das ciências sociais, do século vinte, consubstanciado no grosseiro materialismo da luta de classes, deformou nossa consciência coletiva; e não se imagine que essa percepção pedestre esteja superada neste início de ano. Muito ao contrário, sua latência ferve como larvas que se aquecem no interior de um vulcão.

Corroída a terceira via por uma corrupção antes jamais imaginada, que brota das entranhas de um sistema político que não nos serve (e a país nenhum), a extrema direita venceu eleições igualmente tempestuosas e seus primeiros atos já demonstram caminhos certos e outros equivocados. Não há nenhuma dúvida de que o liberalismo – político e econômico – é a única opção à humanidade que restou dos solavancos do passado. No entanto, essa concepção avançada comparece ao poder em conjunto com o que há de mais doentio e reacionário (termo a indicar volta a um passado de erros). Se o fortalecimento da iniciativa privada, a redução do peso mastodôntico de nosso Estado e dos insuportáveis impostos, é bom para todos (não será enfraquecendo os ricos que dignificaremos os pobres), é temerário acabar com os direitos trabalhistas, enfrentar a violência com violência, confranger o multilateralismo das relações internacionais a nacionalismo xenófobo, e insuflar a intolerância.

O resultado eleitoral mostrou a fenda, o ferimento que tritura nosso corpo social e o leva ao coma. Nenhum país escapou de suas crises sem que seus homens e mulheres se entendessem pela cultura e tolerância política, que podem ser resgatadas independentemente da resolução final dos problemas educacionais, dependente de anos de saneamento. E esse entendimento somente se viabiliza a partir da tolerância inerente a um pacto social liderado por um governo culto e consciente. Parece que não temos nem mais um pingo de virtuosismo. Voltaire escreveu pequena obra prima que toca no cerne da questão, “Tratado Sobre Tolerância”, no longínquo século XVII. Um ponto o resume:

“Quanto menos dogmas, menos disputas, menos infelicidades; se isso não for verdade, estou errado.”

A um governo iniciante, sempre vale a mensagem, “utopia” da qual, de um lado e de outro, muitos rirão. Esperemos que os sorrisos não predominem, para não despencarmos a uma guerra civil.

Amadeu Garrido de Paulaé Advogado, sócio do Escritório Garrido de Paula Advogados.

Deixe um Comentário