Política

Democracia é o coração do homem

* Amadeu Garrido de Paula


As liberdades públicas são inerentes à essência do homem. As ameaças à liberdade são ameaças à vida. O Brasil encerrou seu primeiro turno e pôs no epicentro de sua curta e conturbada história o valor da democracia. 

Amargamos vinte anos de ditadura militar. Muitos jovens, incluindo-se bravas mulheres, morreram ou sofreram torturas, as mais vergonhosas. A ditadura enrijecida pelo Ato Institucional nº 5 não teve mínimos limites morais. Somente os estudantes, em regra universitários, se opuseram ao terror. Não havia líderes sindicais, partidários, salvo raríssimas exceções, que se posicionassem contra as forças de um Estado sangrento. É certo que determinados grupos minoritários se opuseram ao Exército por meio de armas. Foram conjurados com facilidade e a “defesa” da ditadura foi muito, muito mais que moderada, como reza nosso Código Penal, ao tratar da legítima defesa.

Estudantes que simplesmente insistiram em manter suas entidades de representação, postas na clandestinidade, foram fuzilados torpemente por viaturas do Exército quando se encontravam,  nas ruas, em pontos de ônibus, a exemplo de Honestino Guimarães, Gildo Lacerda,  Alexandre Vanucchi Leme, que morreram sob choques elétricos (estudantes de Geologia da USP passaram a usar seus blusões às avessas, para não revelar que eram estudantes de Geologia). Depois os frágeis e indefesos militantes do velho Partido Comunista Brasileiro, que sempre se voltou ao pacifismo, ao pacto social, foram vítimas fáceis dos trogloditas: Vladimir Herzog e Manoel Fiel Filho, apenas os mais notórios sacrificados.

O DOI-CODI foi o exemplo mais sórdido de criações no meio opressivo, que paulatinamente foram desprendendo-se de qualquer controle do governo militar central, dividido e oscilante no controle da ditadura. O silêncio permitia tudo aos militares. Suas mãos cheias de sangue não poderiam ter ficado impunes. Suas covardias deveriam tê-los levados à prisão, como ocorreu em nossa vizinha Argentina. 

Veio a anistia, o perdão recíproco, mas que não convence a todos. Quando o candidato Bolsonaro diz que seu livro de cabeceira é uma garatuja deixada pelo “Major Tibiriçá”, cognome de Carlos Alberto Brilhante Ustra, o mais torpe, ao lado de Sérgio Paranhos Fleury; quando admite que participou dos grupos de massacre e quando reverencia o golpe militar de 1964, ao passo em que um de seus colaboradores ameaça com o obscurantismos de inutilizar os livros de história que contam seus crimes, a chicotada em nosso regime democrático, só ao ser vislumbrada, é extremamente preocupante.

Não há dúvida de que o PT feriu a fundo a vida dos brasileiros. Não há uma única causa, máxime de fatos políticos. Ao sair às ruas o povo em todas as capitais, o governo petista, de Dilma Rousseff, permaneceu numa indiferença olímpica, gélida, própria das neves do monte de Kilinmajaro. Nenhuma das legítimas reivindicações da classe média, cujas lojas se fechavam, dos trabalhadores, foram sequer analisadas. Tinha eu a certeza de que esse imenso povo um dia voltaria às ruas. E voltou arrastado pela esperteza da extrema direita, fisicamente representada por um candidato tosco, raso, ferramenta de manobra do capitalismo selvagem e das elites mais desprezíveis de nosso País. Não é a primeira vez que a direita se aproveita da justa indignação das massas trabalhadoras e carcomidas pela fome e pelo desespero. O tema foi analisado verticalmente em “O Dezoito Brumário de Luis Bonaparte”, por Karl Marx, equivocado em sua filosofia global, correto na análise do fenômeno.

A onda conservadora dá a impressão de que redimirá a vida de todos os descamisados, até que estes percebam que, ao contrário de sua redenção, serão ainda mais afogados no mar da desesperança. O que acaba de ocorrer no Brasil é um bom exemplo, mas esperemos que vença a liberdade política, econômica e a justiça social, sem as quais jamais nos tornaremos uma nação. Caso contrário,  dentro de alguns meses estaremos a engolir esse veneno que, não raro, é inoculado nas veias das melhores nações.

Amadeu Garrido de Paulaé Advogado, sócio do Escritório Garrido de Paula Advogados.

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