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Cloroquina: a grande polêmica nacional

Buscando a cura ou caminhando ao desespero?

Declaro não ter conflitos de interesse.

Dr. Diego Ralph Burani*


No cenário atual, em meio a tantas instabilidades e uma situação catastrófica, em que a busca pela cura do COVID-19 se torna cada dia mais angustiante, devemos sempre pensar e ser ponderados e conceder aos nossos pacientes o tratamento que gostaríamos de receber.

A medicina é uma soma de conhecimentos aplicados em um mundo de incertezas, buscando sempre o melhor caminho para atingir a maior probabilidade de cura. Tratar os doentes de forma desesperadora e sem evidências cientificas, podem fugir do princípio básico da verdadeira prática da boa e velha medicina.

Hoje comprovadamente sabemos que os desfechos mais satisfatórios são aqueles baseados em evidências. Avaliando esse contexto vejo um certo desespero em querer prescrever um tratamento que de fato ainda não existem evidências suficientes para que as pessoas possam se beneficiar em uma situação caótica. Vejo diversas terapias ou propostas sendo utilizadas no tratamento da COVID-19 sem efetividade ou de baixa segurança.

Gostaria de esclarecer aos leitores que não sou contra ou a favor de nenhum tipo de medicamento, e sim a favor da ciência. O uso da hidroxicloroquina ou cloroquina pode ser prescrito por qualquer médico, com o consentimento do próprio paciente, mas até o momento não há indicações ou recomendações do uso rotineiro desses medicamentos demonstrando segurança e eficácia, ou seja, ainda não existe um tratamento especifico para o COVID-19.

No mês de dezembro de 2019, na cidade de Wuhan, China, foram evidenciados os primeiros casos de uma doença nova, causadora de uma pneumonia de origem desconhecida. Através de estudos foram demonstrados que se tratava de um novo coronavírus denominado SARS-CoV-2 sendo a doença COVID-19, doença nova e infecciosa que foi reconhecida como pandemia pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Em um cenário como esse, grande parte das ações são empíricas, achados e experimentos in vitro. O interessante, embora compreensível do ponto de vista humano, é que as condutas muitas vezes tornam-se emocionais ou pessoais. Há um incessante interesse de querer tratar as pessoas com experiências pessoais, sem metodologia científica adequada, com o uso de alguns medicamentos com efetividade duvidosa, mas rapidamente adotados por alguns, com promessas salvadoras.

Isso não é ciência, mas “achismo”. Tal fato que pode levar a excesso de tratamento e uso sem indicação, com consequências e eventuais efeitos adversos que potencialmente podem ser irreversíveis.

Existe uma diretriz atual para o tratamento da COVID-19 em nosso país, apoiado por várias sociedades de especialidades, entre elas estão a Associação de Medicina Intensiva Brasileira, a Sociedade Brasileira de Infectologia e a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, comprovando que o tratamento para a doença é voltado para terapia de suporte, enquanto o organismo tenta compensar suas disfunções orgânicas e o tratamento farmacológico desses pacientes é baseado em diretrizes comprovadas que tais drogas possam manter o doente hemodinamicamente estável.

Não existem recomendações com grau de evidências. A única terapia ainda segue sendo a profilaxia aos eventos trombóticos, redução do nível inflamatório e o combate a infecções secundarias aos agentes bacterianos. Em outras palavras, usamos heparina, corticoides e antibióticos.

Um tratamento que talvez seja promissor, seria o uso de um antiviral de alto custo e ainda não disponível em nosso país, chamado REMDESIVIR, mas ainda com poucas evidências cientificas, entretanto, algumas promissoras.

Não há medidas que mudem drasticamente a evolução da doença. O que há atualmente são falácias. Vale a pena lembrar que nenhuma doença viral já conhecida se beneficiou com o uso da cloroquina. Já foram testados em Dengue, Chikungunya, Zika e Ebola, e não demonstrou benefícios.

Doentes da COVID-19 morrem na UTI em sua forma grave por suas complicações. Em terapia intensiva não existem intervenções especificas para doentes graves. O grande tratamento é cuidar da doença de base (que para o COVID-19 ainda não temos), e o restante nós já fazemos, que são medidas de suporte clínico.

O uso dos medicamentos mencionados anteriormente, como os corticoides, heparina, antibióticos são discutíveis, mas tem demonstrado que diminui eventuais complicações e reduz o tempo de internação, e a medida mais efetiva e eficaz tem sido a ventilação mecânica (colocar o paciente para respirar através do auxílio de um ventilador). Intervenções em medicina salva vidas, isso é fato, mas quando existem evidências. Por exemplo: o tratamento para uma apendicite é a abordagem cirúrgica, por outro lado existem outras terapias que o médico não exime as pessoas de morrer, e sim reduz as chances de morte, melhora a qualidade de vida, porque se houvesse tratamento, não teríamos tantas mortes.

O que inibe uma boa medicina baseada em evidências são os achismos. Medicina tem que ser feita com rigor. Se não há evidências, não há indicações.

Argumentos falaciosos, notícias falsas e patéticas, politização de tratamentos como: “Temos que prescrever, não dá tempo de tentar, não podemos esperar, está morrendo gente” esses e outros só pioram a situação trazendo sentimento de medo, insegurança e angustia. Quando um médico diz que tratou um paciente através de suas próprias experiências, isso se chama viés de confirmação e não se chama ciência.

Utilizar alguns medicamentos como hidroxicloroquina e azitromicina em casa para pacientes que não estão sendo monitorizados por um médico, é um tanto quanto arriscado, são medicamentos arritmogênicos (podem causar arritmias).

Minha opinião? De verdade? Gostaria muito que esse tratamento proposto com hidroxicloroquina funcionasse, pois é barato e de fácil acesso, mas até o momento há evidencias para malária e artrite reumatoide, mas não para o COVID-19. Os estudos positivos são in vitro, e não in vivo, e dessa forma não estamos considerando e respeitando a individualidade de cada pessoa frente as respostas individuais. Os efeitos adversos ainda superam os benefícios.

E a Ivermectina? Anitta? A esse também não demonstraram benefícios satisfatório até o momento. Apostaria no REMDESIVIR por bloquear a replicação viral, sendo assim diminuiria os sintomas, reduzido a mortalidade, mas ainda não podemos afirmar, pois também estão em estudos.

Se pudesse dar um recado a toda população seria: O cenário é catastrófico e a situação é grave. O isolamento social, os cuidados que vem sendo preconizado como a higiene das mãos, o uso adequado de máscaras são ainda as medidas mais efetivas para combater essa pandemia.

Acreditem em nós profissionais da saúde, estamos todos nessa luta com vocês, não iremos retroceder, estamos buscando diariamente aprender sobre a doença e mesmo nesse cenário continuamos salvando vidas, precisamos da colaboração de todos.

Sabemos tratar pacientes graves no serviço de emergência e na terapia intensiva. Então, no cenário atual, embora seja algo muito difícil, precisamos nos manter firmes, sólidos, com muita cautela, sensatez, e muitas vezes fazer menos é mais. Vamos vencer, juntos.

*Dr. Diego Ralph Burani CRM 34408 é Diretor Técnico do Pronto Socorro Municipal de Santo Antônio da Platina e do Setor de Urgência e Emergência

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