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Ainda tem fome no Brasil

Mario Eugenio Saturno


Em julho, o presidente Jair Bolsonaro ofereceu um café da manhã para os correspondentes da imprensa internacional. Tudo ia bem até que o jornalista espanhol do El País disse que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, estava preocupado com a desigualdade no Brasil e quis saber que medidas o governo estava tomando para reduzir a pobreza no país.

O presidente, mal assessorado, negou que houvesse pessoas passando fome no Brasil: “Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira. Passa- se mal, não come bem. Aí eu concordo. Agora, passar fome, não. Você não vê gente mesmo pobre pelas ruas com físico esquelético como a gente vê em alguns outros países pelo mundo”, talvez estivesse referindo-se à África.

É claro que a imprensa deu um grande destaque a essa grande desinformação do presidente, afinal, o que se esperaria da imprensa quando um presidente da República mostra desconhecimento? A esquerda passou vergonha com a Dilma, agora é a vez da direita… Para Bolsonaro, a miséria por si só acaba porque o nosso solo é muito rico para tudo o que se possa imaginar.

Recentemente, a FAO, Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura,  divulgou o relatório anual sobre a fome no mundo que tem como título “O Estado da Segurança Alimentar e da Nutrição no Mundo”. Embora o Brasil tenha melhorado neste século, uma parcela considerável de pessoas passa fome no país. A quantidade de desnutridos no Brasil caiu de 4,6% da população no período de 2004 a 2006 para menos de 2,5% entre 2016 e 2018. Ou cerca de cinco milhões de pessoas desnutridas.

Segundo o relatório, o Brasil voltou a piorar em consequências da crise econômica que começou em 2012. Desde então, o Brasil enfrentou a maior recessão da história, embora a economia esteja melhor, a fome não diminuiu.

A anemia entre mulheres em idade reprodutiva (de 15 a 49 anos) subiu, de 25,3% em 2012 para 27,2% em 2016. Ao menos o índice de bebês que nascem abaixo do peso ficou o mesmo, 8,4% do total entre 2012 e 2015.

E um dado surpreendente foi o fato da alimentação saudável ficar relativamente mais cara do que a comida rica em gordura, açúcar ou sal. É um fato que se observa em outras economias emergentes como China, México e África do Sul.

Comidas ricas em açúcar e gordura, em geral industrializadas, ficaram mais acessíveis para a população de baixa renda gerando outra situação ruim da situação alimentar no Brasil, aumentou o índice da obesidade entre os maiores de 18 anos. Essa parcela da população subiu de 19,9% em 2012 para 22,3% em 2016.

O dado mais alarmante é que o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) não atualiza as pesquisas da fome do Brasil desde a última feita em 2014, sendo que estava programada uma nova no ano passado. Mesmo assim, o IBGE estimou em 15 milhões de brasileiros que passam fome.

O relatório informa que mais de 820 milhões de pessoas passam fome atualmente e está crescendo em quase toda a África, na América Latina e no Oriente Médio. E cerca de dois bilhões de pessoas estão afetadas moderadamente pela fome.

Mario Eugenio Saturno (cientecfan.blogspot.com) é Tecnologista Sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e congregado mariano.

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