Política

A vitória nos debates

CARLOS BRICKKMANN


No debate americano, só faltou um candidato pular no pescoço do outro. Nos debates brasileiros, houve mais educação, mais civilidade, apesar do gigantesco número de debatedores. Mas o resultado de ambos foi igual: em todos os casos, não houve um vitorioso no debate. Quem apoiava Joe Biden acha que ele venceu; quem apoiava Trump o viu como claro vencedor. O que se pode imaginar é que, como os pesquisados apontam como vitorioso o seu preferido, Joe Biden leva alguma vantagem no número de votos – algo como 10%. Isso não quer dizer que esteja ganhando as eleições: o pleito americano é decidido Estado por Estado, e o número de delegados eleitorais, decisivo, é dificílimo de calcular. Apenas como exemplo, Hillary venceu Trump no número de votos, e foi derrotada na contagem dos delegados eleitorais.

O sistema brasileiro é mais simples, um eleitor, um voto. Mas é muito cedo ainda para prever o vitorioso. Primeiro, faltam os outros debates. Falta a tomada de posição de alguns eleitores importantes – Bolsonaro, por exemplo. Martha Suplicy, dizem, deve dar apoio a Bruno Covas. Martha Suplicy criou o Bilhete Único de transporte e investiu pesadamente em CEUs, excelentes escolas gratuitas de período integral. Falta que o candidato preferido de Martha saiba divulgar esse apoio, falta esperar eventos que influenciem o resultado. Erundina era terceira e em três dias virou o jogo, derrotando o favorito Maluf. Erundina, agora, é vice de Boulos.

Lembrando a História

No final de seus discursos, Bolsonaro diz que prefere os candidatos que se comprometam com o lema Deus, Pátria, Família. É o lema da Ação Integralista Brasileira, cópia do fascismo italiano. O dirigente máximo da Ação Integralista Brasileira, Plínio Salgado, tentou um golpe contra Getúlio Vargas, até então seu aliado. E poucos anos depois o Brasil enviou tropas à Itália, comandadas pelo marechal Mascarenhas de Moraes, para lutar contra o fascismo, inspirador do integralismo.

Ou Bolsonaro não sabe o que está falando, e isso é péssimo, ou sabe, e é pior ainda.

Os problemas argentinos

Tenho uma opinião firmada sobre os problemas argentinos: um dos países mais ricos do mundo, com analfabetismo próximo de zero, autossuficiente em carne, trigo e petróleo, não resistiu à devastação peronista. Pior: a coisa foi tão longe que há peronistas de esquerda, de direita, extremistas. É normal que as eleições envolvam disputas entre peronistas de um lado e de outro. Já vi eleições em que o hino peronista de direita louvava a segunda mulher de Perón (“Perón, Isabelita, la Patria peronista”); o peronismo de esquerda era favorável à primeira mulher de Perón, (“Perón, Evita, la Patria socialista”). E Cristina Kirchner dificilmente poderia ser pior do que já é. Bom, mas isso não significa que sejam verdadeiras as notícias sobre a vida na Argentina. A informação de que a pobreza atinge 40,9% da população argentina é falha. Pobreza, lá, significa receber menos de 45 mil pesos mensais – R$ 3.300,00. E indigente é quem ganha abaixo de 18.500 pesos, R$ 1.370,00.

 Estão mal, mas há pelo menos um país vizinho que está bem pior.

O custo de vida

A empregada doméstica de um executivo de empresa multinacional ganha 20 mil pesos mensais, trabalhando seis horas por dia. Cabe ao patrão pagar condução, almoço e o metade do seguro-saúde (dois mil pesos) que garante a ela e aos filhos o atendimento hospitalar – que ele prefere pagar integralmente. Os três filhos estudam em boas escolas públicas, a filha faz Direito na Universidade de Buenos Aires, e ela se queixa, dizendo que a Argentina é um desastre. Quanto à situação do Brasil, ela simplesmente não acredita no que lhe contam.

Mudando a Coca-Cola

A informação de que a Coca-Cola está deixando a Argentina também não é bem assim. O que sai da Argentina (com destino ao Rio) é o escritório regional da América Latina. As fábricas continuam produzindo onde estão.

Super liberal

Tanto o presidente Bolsonaro quando seu superministro da Economia, o Imposto Ipiranga, cansaram de dizer que os preços são determinados pela lei da oferta e da procura. Cansaram de dizer – e o Procon de São Paulo não concordou. Já notificou quase 600 estabelecimentos no Estado, “na operação de enfrentamento ao aumento injustificado de preços de alimentos”. O Procon exige que as lojas apresentem notas fiscais de compra e venda de itens da cesta básica, para verificar “eventual prática de preços abusivos”.

Pois é: no Governo Sarney, o secretário da Receita Federal, xerife Romeu Tuma, foi aos pastos intimar os bois a se apresentar dentro de normas dos preços congelados. Não resolveu nada. O Plano Real, sem congelamento, sem “teje preso” no pasto, derrubou a inflação. E justo um ministro que se considera liberal, e que sabe perfeitamente que não adianta tabelar preços, aceita de bom grado trabalhar com órgãos estatais que querem controlar preços.

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