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A racionalidade moderna e a radicalização da lógica neoliberal

Everson Araújo Nauroski 


Já no século 19, o sociólogo alemão Max Weber (1864-1920), em sua obra A ética protestante e o espírito do capitalismo, publicada em sua segunda edição em 1920, e também em sua conferência A ciência como vocação, de 1917, chamava a atenção para o fenômeno que ele denominou como “desencantamento do mundo”. Um processo que se caracteriza pela predominância de uma racionalidade técnica-instrumental, uma cultura capaz de colonizar diferentes esferas da vida social, “uma gaiola de ferro” que nos aprisiona.

Nessa linha de raciocínio, nos parece razoável concordar com Pierre Dardot e Christian Laval. No livro A nova razão do mundo, de 2016, eles afirmam que a racionalidade técnica-instrumental analisada por Weber funciona atrelando os conhecimentos e tecnologias na busca incessante pelo lucro. Contemporaneamente, tal fenômeno assumiu contornos de uma radicalização da lógica neoliberal.

O neoliberalismo há muito deixou de ser somente uma doutrina política e econômica, passando a ser uma cultura social, uma forma de representação de mundo, universalizada e hegemônica. Uma tese que encontra ressonância nos estudos de Richard Sennett, sociólogo norte-americano na universidade de Nova York que escreveu em 1999 seu famoso livro A Corrosão do caráter: consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo.

Em resumo, as conclusões de Sennett apontam que a globalização competitiva afeta Estados, empresas, organizações e indivíduos, instaurando uma competição generalizada que coloca as pessoas umas contra as outras. Cria-se um expediente de sobrevivência, quem nem sempre se coaduna com a ética e a moral. A exacerbação da competividade é a ferrugem que corrói o caráter.

Em tal contexto, a racionalidade neoliberal fratura, desagrega, isola e destrói.

Sennett ainda realizou estudos sobre as pessoas que perderam suas casas e economias com a crise imobiliária nos Estados Unidos em 2008. Chocado, ele constatou que embora o sofrimento fosse coletivo, a resposta das pessoas era individual. Milhares de indivíduos e famílias foram se conformando em perder seus lares, sendo obrigadas a morar em barracas, em trailers, com parentes e, em muitos casos, na rua.

Diante do exposto, cabe a indagação: estamos alheios à cultura neoliberal, ou também sofremos sua influência?

Se sofremos, onde podemos identificar seus sinais?

E por fim, a pergunta: continuaremos a reagir sozinhos e isoladamente, ou seremos capazes de articular ações coletivas subvertendo a lógica individualista pelos vínculos de solidariedade?

Autor:  Everson Araújo Nauroski é filósofo, cientista social, coordena o curso de Sociologia do Centro Universitário Internacional Uninter e também atua como consultor e palestrante.

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