DIRCEU CARDOSO GONÇALVES

De autosuficiente no petróleo à falta de diesel e gasolina

            O  Brasil, que chegou a ser alardeado, pelos governos petistas como autosuficiente em petróleo. E vive hoje sua crise particular no setor. Além da variação do preço do dólar e da alta do barril do óleo no mercado internacional, sofre os reflexos da guerra Rússia-Ubrânia, que tumultua o setor energético mundial. Na verdade, nunca tivemos a autosuficiência pois o óleo que retiramos do subsolo não tem a qualidade necessária à produção dos combustíveis que consumimos na frota veicular, na indústria e similares e no setor petroquímico. Precisamos de, no mínimo, uma parte do produto “premium” para, misturado ao que extraímos em terra e mar, fazer a mistura aqui adequada.

            A exemplo do que ocorre em todo o mundo, o barril do óleo vendido a mais de US$ 100, coloca a nossa economia em xeque. No lugar da autonomia outrora cantada, vemos os comerciantes da área com dificuldade para importar parte do óleo diesel consumido pelos caminhões (que respondem com 82% do transporte nacional) e a gasolina que movimenta importante parcela dos automóveis. Especula-se que por falta de investimentos e foco, o parque de refino brasileiro não é hoje capaz de suprir as necessidades. Durante anos a Petrobras, que já foi uma das maiores do mundo no setor petrolífero, em vez de investir no própr io negócio, cuidou de criar benesses para o seu funcionalismo, onde os mais graduados vivem numa verdadeira ilha da fantasia de vantagens. A empresa – recorde-se – ainda sofreu os saques do Petrolão, escândalos de corrupção apurados na Operação Lava Jato que, apesar do livramento dos políticos envolvidos por ordem de juízes dos tribunais superiores, nunca foram desmentidos e, nessas condições, permanecem em aberto para quem tiver interesse e condições de apurá-los e, até, buscar novamente os responsáveis.

            O certo é que os objetivos que justificaram a constituição da estatal, em 1953, parece não terem se cumprido. Hoje há uma corrente que prega sua privatização e outra que luta pela manutenção estatal, inclusive dos privilégios. E o consumidor é quem paga a conta. Quando – por ter ações colocadas no mercado – a petrolífera é obrigada a operar com preços dolarizados, mesmo naquilo que produz internamente, em nada se diferencia das empresas privadas do setor. A única coisa desigual é que as privadas não possuem centenas, talvez milha res, de empregados com gordos privilégios. Logo, melhor seria sermos abastecidos pelo setor privado, buscando os melhores negócios energéticos disponíveis ao redor do mundo. Se não servir nem para regular o setor e garantir a presença dos combustíveis nas bombas de abastecimento, que utilidade tem a Petrobras?

            Agora, poucos meses antes de começcar a campanha eleitoral, desponta a discussão entre os possíveis candidatos – especialmente os dois principais – sobre a política energética que pretendem para o país. Tudo o que falarem será o improvável, pois nada fizeram nesse sentido durante os respectivos mandatos e, engessada como é a operação da estatal, nada poderão fazer sem esbarrar nas rígidas regras do mercado que protege as ações. É certo que a economia nacional precisa de preços mais baixos para os combustíveis e isso, se for feito, tem de ser através da desoneração tributária e jamais pela ingerência no esquema da petrolífera, cuja única solução seria a sua venda ao capital privado.

            A realidade energética aqui instalada não terá seus problemas resolvidos no fugaz espaço de uma campanha eleitoral. Por isso, o melhor é que os candidatos – sejam eles quem forem e de qualquer matiz ideológico – não tentem enganar o povo dizendo que vão resolver esse gargalo. É uma problemática grande demais e exigirá muito trabalho, talvez mais do que um mandato inteiro de trabalho permanente. Os caminhoneiros, que dependem do diesel para trabalhar, sabem disso…

            Em tempo: considere-se que o carro elétrico está chegando com força e, em alguns anos, o petróleo poderá não ser tão necessário como hoje.

Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves – dirigente da ASPOMIL (Associação de Assist. Social dos Policiais Militares de São Paulo) 

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