Falta de equipamentos angustia e revolta médicos de Santo Antônio

Cidade tem apenas seis respiradores para atender pacientes em desespero por asfixia causada pela Covid-19

Da Redação

Falta de respiradores revolta profissionais médicos de Santo Antônio da Platina
Crédito: Agência CNI de Notícias

Médicos que atuam na linha de frente de combate à Covid-19, que já matou 64 platinenses e mantém internados e inativos cerca de 500 platinenses, estão no limite de suas forças por atuarem numa área extremamente desgastante, quadro agravado pelo caos psicológico amplificado pela falta de estrutura para um atendimento mais adequado.

O desabafo do médico Anderson Hinterlang, profissional respeitado na comunidade local, dá a dimensão do quadro dramático vivenciado em Santo Antônio da Platina. Ele diz que a situação é tão grave que os profissionais que atuam na linha de frente no combate à Covid muitas vezes se veem na iminência de ter de escolher qual paciente vai ser colocado no equipamento de respiração artificial.

Para um município que se aproxima dos 50 mil habitantes, a estrutura de atendimento aos pacientes de Covid-19 chega a dar vergonha. O Hospital Nossa Senhora da Saúde, referência para quase uma dezena de municípios da região, possui dois respiradores, sendo um deles de transporte. Ou seja, é utilizado em ambulâncias que transportam pacientes.

Ou seja, se dois pacientes necessitarem de equipamento de respiração artificial para sobreviver, o médico de plantão terá de optar sobre qual deles deve ficar sem o respirador, com risco iminente de morte. Além da jornada extenuante, o profissional e toda a equipe, incluindo os profissionais de enfermagem e técnicos, acabam sucumbindo a uma carga emocional insuportável.

No final da tarde desta terça-feira (06), o tom da voz do médico Anderson Hinterlang era de desânimo, como quem está cansado de esperar uma solução das autoridades. “Como é difícil as coisas acontecerem em nossa cidade”, resumiu seu desencanto.

Além dos dois respiradores disponíveis no Hospital Nossa Senhora da Saúde, a cidade conta com outras quatro unidades no Pronto Socorro Municipal, que funciona anexo à casa de saúde. Desses equipamentos, um é para transporte.

Para se ter uma gravidade da situação, nesta terça-feira (06), três pacientes estavam intubados no Pronto Socorro. Ou seja, não existe disponibilidade de mais ventiladores mecânicos. Se chegar mais um paciente para ser intubado, “tá lascado o negócio”, na linguagem de um médico para expor a situação.

No Hospital Nossa Senhora da Saúde, o único ventilador disponível está sendo usado por um paciente intubado. Se outro paciente precisar de ventilador mecânico, não há o que fazer. “Vai morrer. Se mais algum paciente precisar ser intubado, não há o que fazer”, resume lacônico, Hinterlang.

Sem luz no fim do túnel
A secretária municipal de Saúde, Gislaine Galvão, diz que o município tem feito o que pode para ajudar o Hospital Nossa Senhora da Saúde, que é uma instituição privada e filantrópica. Ela cita o pagamento de subvenção à instituição e gestões junto aos deputados que representam a região na Assembleia Legislativa e Câmara Federal.

Um desses parlamentares, Pedro Lupion (DEM), disse nesta semana que já tem protocolado no Ministério da Saúde respiradores e que a liberação é uma questão de mais alguns dias.

O deputado estadual Luiz Cláudio Romanelli (PSB), anunciou há poucos dias a liberação de mais 12 leitos de UTI para Santo Antônio da Platina, sendo mais cinco para o Hospital Regional, que já possui 15 unidades, e, cinco leitos para o Nossa Senhora da Saúde e dois para o Pronto Socorro.

“Se não temos respiradores para o básico, salvar vidas de quem está morrendo asfixiado, como pensar em mais 12 leitos de UTI”, desabafou outro médico que pediu anonimato. Ele critica a falta de planejamento como responsável pelo quadro caótico que está ocorrendo em Santo Antônio da Platina.

“Deveriam ter pensado nisso há pelo menos um ano ou seis meses, no mínimo. Um equipamento de última geração, que poderia ser comprado por 70 mil reais, agora as empresas pedem 150 mil, 200 mil reais. Só que não tem onde encontrar. Tem gente que comprou para especular, alugando a peso de ouro”, complementa o mesmo médico.

Exemplo a ser seguido
Na Santa Casa de Jacarezinho a situação é outra porque é uma instituição administrada com planejamento. A diretoria da instituição vem se preparando há mais de um ano para o colapso causado pela pandemia.

Segundo o presidente da instituição, o médico Nilton José de Souza, que é igualmente privada e filantrópica, a Santa Casa enfrenta muitas dificuldades, mas com estrutura para atender adequadamente seus pacientes, provenientes de mais de 20 municípios da região. “Temos 10 respiradores na UTI adulto com 10 leitos, dois no Setor de Isolamento para 10 leitos semi-intensivos, e dois no Pronto Socorro, além de sete unidades de retaguarda. Temos mais cinco respiradores no nosso serviço de manutenção, totalizando 26 unidades”, informa.

Segundo ele, a manutenção é contínua pela alta rotatividade e troca de componentes básicos, salientando que o hospital precisa ter, no mínimo, em torno de 30 % de retaguarda em pleno funcionamento.

“A maior parte desses equipamentos foi obtida nos últimos anos, mantendo nossa política de renovação de recursos de infraestrutura, além de monitores, aparelhos de anestesia, oxímetros, carros de emergência e mesas cirúrgicas elétricas”, assinala Nilton.
“Temos ainda mais 5 respiradores em manutenção em Curitiba há um ano, aguardando peças. Nós tivemos que nos adaptar devido à Santa Casa ser referência nas urgências. Também temos problemas, que não são poucos”, observa

Concluindo, o médico assinala que, além da dificuldade com manutenção, está em falta medicamentos para intubação, anestésicos, luvas e máscaras cirúrgicas, tudo com preço acima do praticado há um ano, em torno de cinco a 10 vezes mais caros.