Santo Antônio da Platina cria projeto de vigilância local

Com amparo da Polícia Militar, Programa Vizinhança Solidária conta com ações de patrulha rural, placas de identificação nas propriedades e conexão direta com o 190

Sistema FAEP


Os casos de roubos e furtos em propriedades rurais têm sido um desafio aos agricultores e pecuaristas paranaenses. A vulnerabilidade do meio rural, principalmente devido à localização afastada, faz com que produtores sejam “alvos fáceis” de quadrilhas. De acordo com a Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp), nos últimos três anos, foram registrados mais de 2,3 mil roubos a propriedades rurais (quando há contato com a vítima, geralmente em situação de ameaça e/ou violência) e 19,2 mil furtos (em que os bens são levados quando a vítima não está no local ou não percebe a ação).

No Norte Pioneiro, a violência recorrente mobilizou produtores de Santo Antônio da Platina a criarem um projeto de vigilância na região. O Programa Vizinhança Solidária será implantado em uma parceria do sindicato rural do município, Conselho Municipal de Segurança Pública e Polícia Militar (PM), com o objetivo de aumentar o patrulhamento na zona rural e facilitar o contato com a polícia em situações de emergência.

Segundo a produtora rural Ligia Buso, que tomou a frente da organização do projeto, os produtores interessados serão cadastrados no sindicato e receberão placas de identificação com um QR Code para serem instaladas nas propriedades. Os dados (nome do proprietário, telefone, geolocalização, etc.) também estarão disponíveis na 4ª Companhia da PM do 2º Batalhão, responsável pela região. A partir de uma conexão direta de um telefone celular com o 190 da PM, os produtores poderão acionar socorro em casos de emergência.

“Quando um produtor acionar socorro no grupo que tem a conexão com o 190, a PM vai identificar a propriedade e terá acesso a todas as informações, junto com a rota e o tempo até chegar no local dado por um GPS. Não será necessário passar o endereço na hora do chamado, principalmente porque na zona rural é mais difícil fazer essa localização sem a ajuda de um GPS”, explica Ligia.

Além da implantação de placas de identificação nas propriedades e conexão via telefone celular, o programa mobilizou a realização de uma patrulha rural. Para esse serviço, a Polícia Militar colocou à disposição uma caminhonete Mitsubishi L200, que será reformada por meio do rateio das despesas entre os produtores participantes. Atualmente, o programa conta com 53 propriedades rurais cadastradas.

Gado na mira

Diversos relatos de produtores da região do Norte Pioneiro, principalmente em Santo Antônio da Platina, indicam que a principal ação das quadrilhas é o furto de gado. As histórias chegam diariamente por WhatsApp, em um grupo criado para prospecção de produtores interessados em se cadastrarem no programa de vigilância.

O produtor rural Arnaldo Paiola já teve a propriedade invadida três vezes para furto de gado. “Quando eu localizei um dos meus animais, a polícia encontrou mais três cabeças na mesma propriedade, que haviam sido furtadas nas outras vezes”, conta. A ação na propriedade de Paiola foi relativamente pequena, mas há casos de furto de mais de 40 cabeças de gado nas propriedades vizinhas. “Os bandidos estão localizados em diversos pontos e são bem organizados para levarem tanto gado de uma vez. Ou seja, leva a crer que tem receptores grandes aí na região”, diz o produtor, que já se cadastrou no Programa Vizinhança Solidária. “Acredito que todo movimento, se bem feito, tem resultado. Estamos atuando, participando e estamos esperançosos”, afirma.

Segundo Ligia Buso, além dos relatos de roubos de animais adultos, chegam várias histórias de “sumiço” de bezerros e animais que são encontrados mortos na propriedade, sem as partes nobres. “Nós acreditamos que tem uma quadrilha especializada, o que fica mais difícil de combater. Por isso estamos tentando que essas propriedades fiquem mais protegidas”, aponta.

O presidente do Sindicato Rural de Santo Antônio da Platina, José Afonso Junior, ratifica a preocupação dos produtores com a violência na região e destaca o programa de vigilância como uma alternativa para reprimir a ação dos bandidos. “Desde o começo do ano passado, a gente tem se reunido com a Polícia Militar e a Polícia Civil para tentar minorar essa situação dos assaltos. Então, nos reunimos com o prefeito, que também é produtor, e ele abraçou a causa para a criação desse programa”, salienta.

Vizinhança Solidária como referência para outros municípios

O Programa Vizinhança Solidária de Santo Antônio da Platina gerou mobilização em outros municípios do Norte Pioneiro, como Ribeirão Claro, Jacarezinho, Cambará e Carlópolis. Segundo Ligia Buso, cerca de 40 produtores já declararam interesse e esperam aderir ao programa. “A ideia é padronizar, mas cada sindicato será responsável pela administração no seu município, realização e manutenção dos cadastros e pelo contato com a Polícia Militar responsável por aquela área de atuação”, esclarece.

O produtor rural Antonio Dias Filho, de Jacarezinho, também já foi vítima de furtos na propriedade, e reforça a necessidade de um combate mais efetivo à ação destes criminosos. “Na minha fazenda, levaram cerca de 10 bezerros Angus. No meu vizinho, conseguiram levar 45 novilhas. Entraram na madrugada, amarraram os animais na caminhonete e levaram para um caminhão grande na beira da pista, cortaram os brincos e deixaram no chão da fazenda”, conta. “Acredito que um programa como esse em Jacarezinho vai intimidar os ladrões e diminuir esses casos”, analisa Dias Filho.

Segundo o presidente do Sindicato Rural de Jacarezinho, Eduardo Quintanilha Braga, foram realizadas algumas reuniões envolvendo os sindicatos rurais de Cambará, Ribeirão Claro e Carlópolis para o debate sobre a implantação de um modelo do programa de Santo Antonio da Platina. No caso de Jacarezinho, Braga adianta que será utilizado o mesmo sistema de placas de identificação com QR Code e geolocalização. “Esse sistema será ancorado na autoridade policial que cobre a nossa região [1ª Companhia do 2º Batalhão da Polícia Militar]. Nós estamos nos organizando para poder prestar esse serviço de apoio para o nosso associado”, destaca o presidente.

FAEP cobra mais ações no campo

A FAEP tem acompanhado a situação de furtos e roubos no campo e adotado providências, seja cobrando autoridades ou orientando os produtores rurais. Em 2019, a Federação enviou um ofício à Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp), solicitando a criação de uma força-tarefa para investigar e desbaratar quadrilhas que têm como alvo propriedades rurais. Em 2017, a FAEP e o governo do Paraná publicaram uma cartilha com orientações aos produtores para minimizar a ação criminosa. A cartilha está disponível no site da entidade (www.sistemafaep.org.br), na seção Serviços.

Além disso, a FAEP também incentiva que os agropecuaristas participem dos Conselhos Comunitários de Segurança (Consegs). Na avaliação da Federação, a ação dos Consegs é uma forma de os produtores rurais participarem das decisões relacionadas às políticas de segurança dos municípios e de colaborar com as autoridades, fortalecendo uma rede entre sociedade e Polícias Civil e Militar.