Educação

As tecnologias em atividades remotas e seus excessos

Modalidade de ensinar que surgiu e cresceu durante a pandemia exige atenção e cuidados da comunidade escolar

Sergio Vale da Paixão*


A educação escolar que chega nos lares revela uma corrida desenfreada pela gestão digital nas escolas, um desafio que necessita de ajustes. Imagem: Freepik

Com a chegada do Covid-19, no início de 2020, em busca dos melhores caminhos para que os conteúdos e atividades chegassem aos estudantes sem prejuízos, iniciou-se uma corrida desenfreada pelas gestões e pelos educadores nas escolas de todo o Brasil. Em meio a essa corrida, encontrou-se, nas novas tecnologias, um foco de luz no fim do túnel. Foram elas as ferramentas que deram conta — pelo menos até agora! — de minimizar o distanciamento entre a escola, os professores e os estudantes, e que colaboraram para que o mínimo necessário chegasse até os lares brasileiros para o cumprimento do calendário escolar e para o que fora preparado para o ano letivo.

Essa novidade repentina na forma de se ensinar e aprender que mobiliza o trabalho com as tecnologias para fins de ensino, mudaram-se também as formas de as famílias reconhecerem o trabalho dos educadores. Pais e responsáveis, dentro desse novo contexto, passaram, pelo menos em partes, a cumprir o papel de acompanhantes dos trabalhos remotos dos filhos, assim, a atuação dos profissionais da educação e o das tecnologias, com suas demandas e excessos, passaram a ser ressignificadas por todos.

No entanto, o atual cenário é convidativo a pensar a forma como as crianças e os adolescentes, os estudantes de modo geral, estão lidando com o uso de seus aparelhos eletrônicos, como celulares, notebooks, tablets, fones de ouvido e tantos outros disponíveis na atualidade, para estudar e para entreter ao mesmo tempo. E a discussão vai além!

Para os mais otimistas, os que acreditam no papel importante que cumprem as tecnologias, o contexto abre portas para um repensar a escola e as metodologias de trabalho para fins de ensino; aproximam os professores e os estudantes às novas formas de descobrir o mundo a partir de recursos disponíveis de forma gratuita e com facilidades de acesso, além de promover um maior engajamento dos envolvidos no processo de aprender trazendo leveza e criatividade.

Para os não tão otimistas assim, e observadores da forma como os estudantes estão se utilizando das tecnologias para fins de estudos nesses últimos meses, é preciso estar atento ao sinal que acende com a utilização em excesso, o relaxamento e o não comprometimento com horários e com materiais de estudo já que, sem a presença física do professor e sua autoridade — não autoritarismo — e a não presença dos pais em casa, pois trabalham fora, negligenciam um tempo precioso de estudos e se “distraem” com os olhos na tela, que oferece milhares de possibilidades.

É preciso, em meio a essa dualidade de opinião, além do respeito, a consideração de que vivemos um momento de exceção e que outra luz se acende num futuro próximo, trazendo o retorno consciente e saudável a todos aos ambientes escolares. Foto: Julia M. Cameron.

Isso se faz necessário para que possamos encontrar, pelo menos no que diz respeito à escola, equilíbrio na utilização de tais ferramentas tecnológicas para fins de aprendizagem, aproximando-as às outras tecnologias, como o papel e a caneta, o giz e a lousa, que são tão importantes quanto as telas, foram aceitas pela educação e permanecem presentes até hoje. Considerar que as atividades remotas e a educação à distância não foram pensadas para a educação básica em sua gênese, e que o uso das tecnologias da forma como estamos fazendo nos últimos meses se configura como uma excepcionalidade — apesar das inúmeras pesquisas que já profetizavam e incentivavam o Letramento Digital, o que colaborou muito para que aprendêssemos sua importância e necessidade para o dia a dia da escola — é visualizar um novo e importante momento para o ensino presencial, em breve.

Para todos os envolvidos na educação, sejam gestores, professores e familiares, emerge a necessidade de um esforço hercúleo para acompanhar de perto o que tem feito a garotada em casa, quando propostas as atividades escolares, e de, por meio de diálogos, mostrar a eles que o momento emergencial nos convida, e até nos obriga, a estarmos mais próximos e a utilizarmos das tecnologias a nosso favor, mas que ainda existe vida para além das telas. Aproximá-los dos livros físicos, das conversas produtivas e com temáticas importantes, do bate-papo olho no olho, do sentar à mesa longe das tecnologias e conversar, sentir, observar, viver…

Esse é um alerta a todos nós, pais e professores, que somos imigrantes digitais e fazemos uso das tecnologias, por vezes, diferente das crianças. É hora de tomarmos nossos lugares e, utilizando do diálogo (como já apontamos), evitarmos sequelas futuras na forma como interagem com os outros e não carregarmos a culpa de que poderíamos ter feito algo para evitar e não fizemos. Orientá-los para o bom uso, mostrar-lhes caminhos, contar-lhes nossas experiências… há formas de ajudar nossas crianças a fazerem uso consciente de seus celulares e aparelhos, de modo geral.

Termos consciência de que o ano letivo de 2020 tem se configurado como um ano atípico para todos e acreditar que a escola em todas as suas orientações e ações tem se utilizado das teclas e telas com frequência para preencher lacunas trazidas pela pandemia do Covid-19 e que tal cenário colabora significativamente para a construção de uma escola presencial mais atualizada e com propostas metodológicas criativas é já um grande passo para acreditar na escola do futuro.

Aos pais, cabe a observação e os cuidados com os excessos e dependências e até alienação das crianças diante das máquinas, das telas. Aos professores, cabe deixar um pouco de lado a grande quantidade de conteúdos listados, os números, as letras e os códigos, e criar ambientes e oportunidades com assuntos que promovam um pensar e refletir sobre si e sobre as coisas do mundo, promovendo a educação integral que favorece a formação emocional do sujeito que aprende a partir daquilo que é valor para ele. E, ao que aqui propusemos, pensar o uso das tecnologias, algo que, nos últimos tempos, tem sido de valor para todos, nativos e imigrantes digitais, e que precisa ser problematizado sempre para que tenhamos dias melhores, hoje e amanhã.

Que mais que sabermos reconhecer as regras e as propostas apontadas no currículo escolar, tenhamos espaços suficientes, dentro ou fora das tecnologias, para colaborar para que os estudantes aprendam a sentir o mundo, e que encontrem a felicidade; infelizmente, assunto pouco explorado nas atividades remotas e presenciais dentro e fora da escola.

*Sergio Vale da Paixão é autor de livros sobre educação e tecnologias. Professor do IFPR de Jacarezinho. Doutor em Psicologia (UNESP) e Mestre em Estudos da Linguagem (UEL). Lança em 2020 Inácio, larga esse celular!, uma obra infanto-juvenil sobre o uso excessivo do smartphone.

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