INCENTIVO

Qual é o seu valor?

Qual é o valor de uma vida? Quanto custa não adoecer? Quanto custa a cura? Mas como não adoecer em uma pandemia?

Diego Ralph Burani*


O mundo adoeceu. Grave e rapidamente. Um golpe na cara da “humanidade” mais desumana que já povoou o planeta. Mais uma vez constata-se que não somos deuses e não podemos tudo.

Por esse e outros motivos, no início dessa pandemia me coloquei a pensar: Irei me manter com a guarda baixa, me fecharei entre quatro paredes, no meu consultório, abandonarei o serviço público, assim me resguardarei de todo o mal desta escura e ameaçadora pandemia?

Mas não… Se acovardar não faz parte da minha vida. Pra quem me conhece sabe que guardo em mim, um instinto de guerreiro, sou movido a desafios.

“Não considere como uma provocação aos que escolheram não estar na linha de frente, eu respeito a decisão de todos, e precisamos que muitos colegas sigam fazendo a boa e velha medicina tradicional. Deixo aqui minha admiração a todos”.

Um grande desafio encarar uma pandemia de frente, sem ter medo de adoecer, continuar lutando diariamente para salvar vidas e devolver a felicidade a dezenas, quem sabe centenas ou até mesmo milhares de pessoas. Mesmo que isso pudesse me custar a vida.

Isolado de praticamente tudo, visto que me mantenho trabalhando, e agora mais ainda, comecei a pensar em algumas palavras que agora realmente fazem mais sentido.

– Abraço: não fui criado com muitos, perdi minha mãe aos 3 anos de idade, meu pai sempre foi muito durão, e abraço nunca foi parte da minha vida, até realmente constituir uma família e saber o quanto é importante um abraço para um filho e quão difícil tem sido pedir a meu filho que não se pendure em mim como habitualmente faz quando estou em casa.

Ao chegar depois de um dia cansativo e ser recebido pela minha esposa com um abraço apertado. Ou como é encontrar um amigo e não poder lhe dar um abraço de chegada ou despedida.

Como é bom abraçar!

Aperto de mãos: não foram até agora, poucas as vezes em que estiquei e precisei recolher a mão ao cumprimentar pais ou acompanhantes de pacientes que acabaram de entrar no consultório. Não fazer isso parece criar distanciamento, incomoda, parece não ter empatia.

Como é bom um aperto de mão!

Beijo: beijar é muito bom! Beijar é bom demais! Esposa. filho, amigos e até a sogra. Pra demonstrar paixão, saudade, amizade, amor… cada qual em sua categoria.

Como é bom beijar!

Reunir:  A galera do Jiu Jitsu para aqueles treinos suaves, que chegam a arrancar pedaço de pele, reunir para um churrasco, casamento, aniversário, almoço de domingo, para um café da tarde. Muito bom estar fazendo o que se gosta, com quem se gosta. Comer, beber, dar risada, ouvir música, conversar.

Nem os momentos de tristeza estão reunindo as pessoas. Até velórios estão sendo limitados.

Como é bom reunir!

Comprar: quão abençoados são aqueles que já tem o que comer e que, acabando, podem ir às compras e prover sua casa de alimentos, produtos de higiene e limpeza, e até mesmo de coisas supérfluas . Tenho pensado demais naqueles que, somente depois de um dia de trabalho, podem, após o recebimento de sua “diária”, comprar algo que lhes falta. São milhões nessa situação. Andarilhos, desempregados que dependem da boa ação de outras pessoas que compram.

Como é bom comprar!

Ficar em casa: o convívio familiar é maravilhoso. Às vezes, enlouquecedor – para quem tem filhos pequenos. Mas ficar em casa nos permite observar coisas que normalmente não temos tempo de perceber. Detalhes na decoração, comportamento de familiares, dos animais. Mas agora quase não posso ficar em casa. E os que deveriam não os fazem.

Como era bom ficar em casa!

Sair de casa: Demais… A liberdade, o poder de ir e vir. Sair e voltar quando necessitamos ou queremos. Quantas vezes reclamamos de ter que sair. Foi preciso confinamento para que o ter que sair, o querer e poder sair fosse valorizado.

Como é bom sair!

Viajar: perto, logo ali, longe, muito longe. De carro, avião, ônibus, van, que delícia, arrumar malas, mesmo a um congresso, a um curso, ou visitar amigos, parentes, conhecer lugares diferentes, hotéis, outras culturas.

Como é bom viajar!

Acredito que em dezenas de anos, essa foi a primeira Páscoa com sua celebração “não comercial”. As pessoas estavam mais voltadas às suas famílias do que à compra desesperadora de chocolates superfaturados. Não veremos filas e mais filas, sacolas e mais sacolas de chocolates. Será uma oportunidade ímpar para revermos valores. Verdadeiros valores! Poder celebrar datas comemorativas e nos reunir é muito bom.

Como é bom celebrar!

Ser médico é uma dádiva, mas antes de ser médico também somos seres assim como vocês, e o que queremos? Ser chamados de super heróis? Panelaços? Não, queremos ser respeitados durante e após pandemias, queremos que entendam que além de médicos, somos seres mortais, assim como vocês. Pagamos impostos, trabalhamos duro e arduamente para sustentar uma família, e mesmo assim há muitos que chamam isso de sorte.

Mas respiramos e por incrível que pareça, também temos sentimentos, de angústia, de tristeza. Muitos não conhecem a magnitude dos esforços atingidos para poder permanecer firmes e operantes em meio de tanto caos. Muitas das vezes, quase sempre,

Utilizamos nossas reservas físicas, emocionais e intelectuais para ir até um hospital cuidar de um doente, que não é apenas um doente e sim um pai de alguém ou um filho ou irmão de alguém. O médico bem sabe o valor de um minuto na companhia de uma esposa, de um pai e de uma mãe e de um filho. E mais… passamos horas e horas em pé sentindo fome, dor, sem poder ir ao banheiro ou até mesmo sem poder manifestar nosso cansaço. Sabe porquê? Porque sabemos a importância de uma vida, um sorriso que acompanha a gratidão, a esperança nos olhos de quem padece, a dor da perda.

Enfim, que tudo isso nos sirva para pensar nos valores! Quando olhar pela janela, tente enxergar as cores como realmente são.

E assim depois de tudo quando podermos voltar a apertar, beijar, comprar, ficar, sair, correr, viajar, reunir, celebrar, daremos mais importância aos valores da vida!

Desejo a todos que esses sentimentos sejam breve em nossas vidas reconhecidos com seus imensuráveis valores!

*Diego Ralph Burani é médico pós graduado em medicina de urgência e emergência e terapia intensiva e diretor técnico do Pronto Socorro Municipal de Santo Antônio da Platina

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