Perícias atrasam investigações e contribuem para impunidade

Promotor avalia que delegacias, apesar da falta de estrutura, realizam bom trabalho

Da Redação


Foto: Antônio de Picolli

Uma pesquisa nacional, divulgada há poucos dias aponta que mais de 80% das delegacias do País carecem de infraestrutura básica para realizar um trabalho satisfatório de investigação e, em casos mais extremos, como o registrado no estado do Piauí, o índice chega a ser superior a 95%, faltando até mesmo papel para registrar boletins de ocorrência.

O Paraná não foge à regra, mas vive uma situação bem mais confortável que a média dos estados brasileiros. Porém, o principal problema das investigações criminais no estado esbarra na estrutura deficitária da Polícia Científica, uma das razões do insucesso de inquéritos que necessitem de perícia.

Na avaliação do promotor de Justiça da Comarca de Wenceslau Braz, Joel Beffa, apesar da estrutura deficitária da maioria das delegacias do Norte Pioneiro elas desenvolvem o que chama de um trabalho “hercúleo” de investigadores e delegados, numa referência a Hércules, herói da mitologia grega. Para ele, as investigações criminais esbarram na morosidade e ineficiência do setor de perícia da polícia judiciária, levando muitos processos a acabar em nada, beneficiando homicidas e ladrões.

Dois anos sem solução

Este é o caso envolvendo um suposto confronto entre quatro rapazes ocupantes deum carro vindo de Curitiba com destino a Jundiaí do Sul e vários policiais militares do 2º BPM de Jacarezinho, que na noite de 25 de setembro de 2016, foram metralhados numa estrada vicinal, com a morte de três jovens e ferimentos graves num quadro ocupante, que acabou sobrevivendo.

O inquérito para apurar a ocorrência que culminou na morte dos três jovens foi aberto pela então delegada titular de Ribeirão do Pinhal Lucy Atena Aquino Santiago, que pouco tempo depois passou a sofre ameaças de morte que recebera através de ligações telefônicas anônimas. Ela registrou Boletim de Ocorrência na delegacia de Cambará e, na ocasião, o delegado chefe da 12ª Subdivisão Policial (SDP) de Jacarezinho, Amir Salmen, determinou abertura de investigação para apurar a origem de tais ameaças.

Logo em seguida o inquérito foi transferido para a Delegacia de Homicídios de Curitiba. Na mesma época o Gaeco – Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, de Curitiba, abriu uma investigação paralela, mas ao que consta até agora, nenhum dos dois inquéritos chegou a qualquer conclusão. A última informação obtiva pela Tribuna do Vale aponta que o caso está parado no Instituto de Criminalística, que até agora não concluiu o laudo para definir detalhes da operação policial.

Ameaças

Conforme o depoimento da delegada Lucy Santiago, ela foi alertada por uma policial de que estaria sendo monitorada dentro de sua delegacia por uma mulher, que seria esposa de um policial militar, além de dois integrantes do serviço reservado da PM (P2) que a estariam vigiando em tempo integral.

No BO que registrou na Depol de Cambará, Lucy Santiago citou o nome do comandante do 2º BPM de Jacarezinho, tenente-coronel Antônio Carlos de Morais, que comandou a operação, juntamente com 12 policiais, na qual ocorreram as mortes dos jovens. Segundo ela, Morais estaria comentando com subordinados que ela seria uma “delegada de quinta categoria” e que as investigações que estava realizando “não iriam atrapalhar a promoção dele”. O comentário, na época, era que os inquéritos poderiam prejudicar a promoção do então tenente-coronel.

A delegada chegou a acusar o tenente-coronel Morais que ele estaria instruindo os policiais militares que participaram da operação sobre o que deveria falar ao serem ouvidos no inquérito. Em tom de desabafo, a delegada alegou em seu depoimento que não estava conseguindo dormir direito depois do que ela chamou de “execução”, temendo por sua vida.

Lucy Santiago relatou ainda que, após receber a ligação da policial militar telefonou para a delegacia de Ribeirão do Pinhal, e o delegado de plantão, João Eduardo Batistella Martins lhe relatou que recebera, minutos antes, uma ligação de uma mulher que contou a mesma história que a policial militar havia repassado à delegada.

Caso da empresária

Outro caso que se arrasta há meses envolve a tentativa de homicídio contra a empresária Jeniffer de Freitas Vieira, no dia 12 de abril, na Vila Claro, em Santo Antônio da Platina. O crime, segundo testemunhas, teria sido motivado por supostos interesses comerciais no setor de telemarketing. Na ocasião, a polícia tratou o caso como tentativa de execução, no entanto, não descartava outras hipóteses que também seriam investigadas.

Na oportunidade a vítima acusou o empresário Lucas Leite Lima, diretor da empresa American Group, que atua no mesmo ramo de Jeniffer Vieira.

No início das investigações, o delegado Antônio Tristão Borborema de Carvalho, que presidiu o inquérito, obteve imagens do carro supostamente usado no atentado contra Jeniffer. A Polícia Civil também apreendeu documentos e equipamentos eletrônicos em cumprimento de mandados judiciais nos endereços do empresário Lucas Leite Lima. As investigações, no entanto, ‘emperraram’ em razão da morosidade dos resultados da perícia realizada pelo Instituto de Criminalística.

Com medo de ser vítima de nova tentativa de homicídio, Jeniffer Vieira deixou a cidade, mas em contato coma reportagem, mostra seu descontentamento com a lentidão do inquérito.

O empresário Lucas Lima nega veementemente a autoria do atentado contra a empresária e diz que já conseguiu reverter outras acusações no âmbito da Polícia Federal e Receita Federal. Ele se diz tranquilo e aguarda sereno o desfecho das investigações.