CARLÓPOLIS
Manifestação em 5 de outubro expõe relatos de problemas na estrutura escolar, sobrecarga e dificuldades para usufruir de licenças; discussão do Plano de Carreira motivou a mobilização

Gladys Santoro – Tribuna do Vale
A redação do Jornal Tribuna do Vale de Santo Antônio da Platina procurou na manhã de hoje, 8, as duas professoras que usaram a Tribuna da Câmara Municipal de Carlópolis, no dia 5 deste mês, para fazer um desabafo sobre as condições atuais do ensino, já que o momento é de discussão do Plano de Carreira dos Professores. Ambas relataram o cotidiano da Escola Municipal Cívico-Militar José Salles, como exemplo. Elas também reivindicaram respostas do Poder Executivo para demandas de infraestrutura, organização do trabalho e valorização profissional. Para elas, a discussão sobre o Plano de Carreira dos professores municipais levou à Câmara Municipal de Carlópolis, uma cobrança que ultrapassa a questão salarial. “Como exigir resultados da educação sem garantir condições adequadas para ensinar e aprender?, questionaram.
As professoras Karolyne e Ana Paula possuem mais de 20 anos de docência e por esse motivo integram a comissão do Plano de Carreira. Ambas foram eleitas pelos profissionais da escola para participar da comissão. Elas contam que as reivindicações discutidas com a categoria não foram acolhidas integralmente na proposta, fato que as motivou a apresentar publicamente suas preocupações e cobrar participação efetiva nas decisões. A professora Karolyne também encaminhou um vídeo à imprensa registrando a manifestação e a indignação com a demora nas soluções, preocupação com a saúde dos profissionais e compromisso com as crianças que dependem diariamente da escola pública.
Pedidos antigos e problemas que permanecem
Conforme o relato da professora, a busca por diálogo começou antes da manifestação na Câmara. No fim de 2025, foi encaminhado um ofício solicitando uma visita do Poder Executivo à escola. Após novas solicitações, representantes da administração compareceram em abril de 2026 e receberam uma pauta de necessidades.
A professora relata que, naquela ocasião, foi chamada de “inconveniente” pelo chefe do poder Executivo, pela insistência em conseguir a visita. “O episódio aparece como expressão de uma preocupação maior: que a cobrança de quem conhece a escola por dentro seja tratada como incômodo, em vez de contribuição para solucionar os problemas”, lamentou a professora.
Entre as demandas apresentadas estavam ventiladores e aparelhos de ar-condicionado sem funcionar, vidros de janelas soltos, problemas no telhado e na instalação elétrica, além de dificuldades de manutenção. Segundo Karolyne, os pedidos citados continuavam sem solução até a manifestação.
Na sala em que leciona para as turmas de 4º ano, a professora relata que o ar-condicionado está sem funcionar há quase três anos e que apenas um dos dois ventiladores funciona, produzindo ruído durante as aulas. Também descreve iluminação insuficiente após a troca do forro, especialmente nas manhãs de chuva, e calor intenso no período da tarde.
As condições, segundo ela, atingem diretamente crianças em processo de aprendizagem, inclusive aquelas que já precisam de acompanhamento mais próximo. A cobrança é por providências concretas, com responsáveis e prazos definidos, para que os encaminhamentos administrativos resultem em melhorias nas salas de aula.
O relato também inclui a queda de um vidro de janela dentro de uma sala com alunos presentes, necessidade de reparos em torneira, piso e bebedouro e dificuldades no estacionamento. São situações que a professora pede que sejam verificadas e acompanhadas pelos vereadores.
A dedicação dos professores não pode substituir a estrutura necessária A manifestação questiona, ainda, a rotina em que os profissionais precisam compensar a falta de recursos para manter o trabalho. Segundo Karolyne, falhas na internet levam professores a usar dados móveis dos próprios celulares para cumprir registros e demandas da escola. A necessidade de equipamentos em boas condições, apoio para manutenção e profissionais para reforço e substituição também integra a pauta.
A professora contrasta os prazos rigorosos impostos à categoria — para planejamentos, relatórios, avaliações e registros — com a demora nas respostas às solicitações da escola. A continuidade das aulas, apesar das dificuldades, não significa que as condições sejam adequadas ou que os profissionais estejam bem.
A falta de substitutos aparece no relato como um problema que afeta tanto o atendimento aos alunos quanto a possibilidade de os professores se ausentarem. Karolyne conta que, em 2024, ela e a professora Rosângela haviam se organizado para usufruir de licença especial, mas foram informadas, perto do início previsto, de que o afastamento não aconteceria.
O episódio reforça a reivindicação de planejamento e regras claras para que os direitos previstos na carreira possam ser exercidos na prática.
Sobrecarga e saúde de quem ensina Outro eixo da manifestação é o desgaste físico e emocional dos professores. Karolyne descreve uma categoria desanimada, submetida a cobranças contínuas e com profissionais exaustos, adoecendo e necessitando de tratamento.
Segundo seu relato, um atendimento psicológico solicitado para os docentes chegou a ser oferecido, mas foi interrompido em menos de três meses para priorizar as crianças. A professora reconhece a necessidade de atendimento aos estudantes e pede a ampliação do suporte para contemplar também quem trabalha diariamente com eles.
A questão apresentada é a responsabilidade de cuidar de toda a comunidade escolar: alunos e profissionais precisam de condições para permanecer na escola com saúde e dignidade.
Reconhecimento precisa continuar depois das comemorações
A professora também reconhece iniciativas positivas, como a distribuição de uniformes e materiais aos estudantes, e agradece aos vereadores pela aprovação da bonificação relacionada ao resultado do IDEB.
Ao mesmo tempo, defende que o reconhecimento pelo desempenho da educação tenha continuidade nas condições de trabalho e na valorização da carreira. A comemoração dos resultados, em sua avaliação, precisa vir acompanhada de investimento no cotidiano que tornou esses resultados possíveis. Karolyne questiona ainda os valores inicialmente apresentados para um concurso de projetos pedagógicos relacionado à obtenção de um selo de qualidade na educação: R$ 600, R$ 400 e R$ 200 para os três primeiros lugares.
Segundo o relato, a discussão gerou encaminhamentos de modificações no texto. Para a professora, o episódio demonstra a importância de ouvir os docentes antes de apresentar decisões prontas sobre o reconhecimento de seu trabalho.
A manifestação também cobra informações sobre a ausência do Proerd naquele ano e solicita que vereadores verifiquem relatos de atrasos em pagamentos de profissionais terceirizados.
Ao mencionar a capacidade de organização do município para eventos, Karolyne reivindica que a mesma disposição para resolver problemas seja aplicada às escolas, onde as necessidades se repetem todos os dias.
Uma cobrança pela carreira e pelo direito das crianças de aprender
O pedido de divulgação do vídeo busca ampliar o debate sobre o Plano de Carreira e dar visibilidade às condições em que os professores trabalham. A manifestação relaciona valorização profissional, participação nas decisões, saúde dos trabalhadores e qualidade do ensino público.
Karolyne convida os vereadores a conhecerem de perto as salas de aula, os equipamentos e a rotina da escola, para que a fiscalização seja acompanhada de providências e respostas.
O desabafo termina sustentado pelo compromisso com os alunos: “continuar ensinando não significa desistir de cobrar. A reivindicação é por uma escola em que a dedicação dos profissionais encontre apoio, e em que as crianças tenham condições adequadas para aprender agora”, disse.
EM ANEXO COM O VÍDEO
Olá! Sou Karolyne, professora da rede municipal de Carlópolis, no Norte Pioneiro do Paraná, há mais de vinte anos.
Encaminho o vídeo da minha manifestação na Câmara Municipal, na sessão de 5 de outubro de 2026, e um texto de contextualização como sugestão de pauta. A discussão do nosso Plano de Carreira nos levou à tribuna, mas minha fala também expõe a realidade de quem ensina em meio a problemas de estrutura, falta de apoio e sobrecarga. Relatei situações da escola onde trabalho, pedidos apresentados ao Poder Executivo e a preocupação com a saúde dos professores e com as condições de aprendizagem das crianças.



