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Dez habilidades que crianças aprendem brincando

Educadores lembram que brincar é essencial para o desenvolvimento infantil e alertam sobre o excesso de telas e a importância do tempo livre, dos espaços públicos e da convivência

Da Assessoria

Bater palmas, pular, inventar mundos, rabiscar, interpretar papéis. O brincar que, para muitos adultos, parece apenas passatempo, para a ciência é um laboratório de habilidades. “O brincar favorece o desenvolvimento cognitivo porque mobiliza linguagem, memória, atenção, simbolização, imaginação e resolução de problemas, permitindo à criança construir conhecimentos por meio da ação e da interação.” O trecho, que faz parte das considerações finais de um artigo publicado na Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação, fala sobre a importância fundamental das brincadeiras durante a infância.

O mesmo estudo explica que elas não são apenas um complemento para a Educação Infantil, mas uma “experiência constitutiva da criança”. Segundo o assessor de Arte da Aprende Brasil Educação, Rafael Pawlina, “o brincar nasce e se fortalece nas relações: no encontro entre crianças, entre crianças e adultos, entre corpo e espaço, entre imaginação e cultura”. Educadores explicam que cada brincadeira mobiliza competências diferentes, muitas delas fundamentais para a vida adulta.

Empatia: descobrir o outro
Quando uma criança brinca em grupo, precisa interpretar emoções, esperar sua vez, lidar com diferenças e compreender limites. É nesse processo que a criança encontra importantes oportunidades para desenvolver a empatia. A coordenadora da Orientação Educacional no Centro de Inovação Pedagógica, Pesquisa e Desenvolvimento (CIPP) dos colégios da Rede Positivo, Michelle Norberto Martins, aponta que as habilidades socioemocionais não são aprendidas apenas por instrução verbal. Elas surgem, principalmente, nas experiências concretas de convivência. “Nas brincadeiras, a criança percebe reações, aprende a dividir, entende frustrações, identifica sentimentos e constrói noções de cooperação”, afirma. Segundo ela, uma brincadeira coletiva exige, constantemente, a leitura emocional do ambiente.

Criatividade: transformar o mundo pela imaginação
Uma caixa pode virar foguete, um lençol pode virar castelo, um graveto pode virar espada. A criatividade infantil nasce justamente da capacidade de atribuir novos sentidos aos objetos e às diferentes situações. Pawlina observa que materiais pouco estruturados podem ampliar as possibilidades de invenção e criação em comparação com brinquedos excessivamente prontos. “Areia, barro, papelão, panos e sucata frequentemente proporcionam experiências mais criativas do que brinquedos eletrônicos altamente roteirizados”, justifica. Ele defende que a criança constrói conhecimento pela ação livre sobre o ambiente. “Quando tudo já vem pronto, com roteiro, personagem, resposta e estímulo, sobra menos espaço para imaginar e inventar”, explica.

Resolução de conflitos: aprender a negociar
Brincadeiras coletivas são cheias de pequenos conflitos: quem começa, quem ganhou, quais são as regras, o que vale ou não vale e como reorganizar o jogo. “Esses momentos funcionam como verdadeiros laboratórios sociais”, afirma a assessora da Educação Infantil e Anos Iniciais do Ensino Fundamental no CIPP dos colégios da Rede Positivo, Pamella Mamed Stepan. Ela explica que, ao negociar regras e resolver desentendimentos, a criança desenvolve a capacidade de argumentação, tolerância, autocontrole, negociação e flexibilidade. A educadora alerta que a hiperintervenção adulta pode limitar esse aprendizado ao impedir que a criança resolva, por si mesma, conflitos compatíveis com sua idade.

Autonomia: descobrir que é capaz
Subir em árvores, inventar caminhos, organizar jogos, decidir estratégias e explorar ambientes são experiências que fortalecem a autonomia. A infância contemporânea, porém, enfrenta um desafio: em muitos contextos, as crianças têm menos oportunidades de circulação, exploração e experiências autônomas.

De acordo com a coordenadora pedagógica dos Anos Finais do Colégio Positivo – Joinville, Josiane Borgmann Viana, o medo urbano, a violência e a hiperproteção reduziram a circulação infantil nas cidades. “Hoje, muitas crianças brincam em espaços fechados, altamente supervisionados e com pouco espaço para experimentação livre. Autonomia não significa ausência de cuidado, mas a possibilidade de, gradualmente, fazer descobertas, assumir riscos calculados e tomar decisões”, aponta.

Comunicação: quando brincar vira linguagem
Mesmo antes da alfabetização formal, crianças aprendem a se comunicar por meio do faz de conta, da dramatização, de narrativas inventadas e de interações sociais. Durante as brincadeiras, elas contam histórias, criam personagens, formulam regras, explicam ideias, interpretam expressões e ampliam o vocabulário. “O desenvolvimento da linguagem acontece de forma profundamente ligada às experiências simbólicas e sociais”, ressalta Josiane.

Coordenação motora e percepção corporal
Brincadeiras físicas estimulam o equilíbrio, a lateralidade, a noção espacial, a força, a agilidade e a coordenação motora fina e ampla. “Pular corda, correr, escalar, desenhar e manipular objetos ajudam o cérebro infantil a integrar movimento, percepção e cognição”, explica Josiane.

Capacidade de lidar com frustrações
Perder faz parte da brincadeira. E essa é justamente uma das razões pelas quais brincar é importante. Na infância, jogos e atividades coletivas funcionam como espaços seguros para experimentar a derrota, a espera, a frustração, os limites, os erros e as divergências.

A psicologia do desenvolvimento aponta que a tolerância à frustração é uma habilidade desenvolvida gradualmente, e não algo que surge espontaneamente. “Quando toda experiência infantil é excessivamente controlada ou voltada apenas ao desempenho, a criança pode ter menos oportunidades reais de lidar com contradições e imprevistos, situações que são muito comuns na vida adulta”, alerta Michelle.

Estratégia, raciocínio e resolução de problemas
Jogos simbólicos, brincadeiras de construção e desafios coletivos exigem planejamento e raciocínio. “Até brincadeiras simples envolvem memória, tomada de decisão e adaptação de estratégias”, explica Pamella. Alguns jogos digitais também podem favorecer o desenvolvimento de algumas dessas competências, especialmente quando envolvem colaboração, criatividade e construção narrativa. A assessora destaca, porém, que o problema surge quando o ambiente digital substitui totalmente as experiências físicas, sociais e presenciais. “O desafio é impedir que o universo virtual substitua experiências essenciais da infância, como a convivência presencial, o movimento corporal, o tempo livre e as brincadeiras espontâneas”, completa.

Pertencimento e identidade
De acordo com Pawlina, brincar também ajuda as crianças a entender quem elas são no mundo. “Nas brincadeiras, elas experimentam papéis, imitam adultos, testam comportamentos e constroem pertencimento social. A infância brasileira sempre foi marcada por repertórios diversos: brincadeiras indígenas, tradições afro-brasileiras, culturas periféricas, cantigas regionais, danças populares e linguagens digitais contemporâneas. Quando escolas e famílias reconhecem esses repertórios culturais, fortalecem vínculos e a autoestima infantil”, destaca.

Atenção e capacidade de concentração
Brincadeiras livres também ajudam os pequenos a desenvolver o foco e a sustentação da atenção, habilidades cada vez mais afetadas pela hiperestimulação digital. Montar blocos, desenhar, inventar histórias, brincar ao ar livre ou participar de jogos coletivos exige concentração contínua, observação e persistência.

Segundo especialistas, o problema não é apenas o uso das telas, mas a substituição de experiências que demandam envolvimento profundo e tempo desacelerado. “Quando a criança brinca sem interrupções constantes, ela exercita a capacidade de permanecer em uma atividade, explorar detalhes e construir raciocínios mais complexos”, afirma Michelle. Ela alerta que o excesso de estímulos rápidos, como vídeos curtos, notificações e a troca permanente de atenção, pode dificultar experiências fundamentais para o desenvolvimento cognitivo infantil.

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