
Por Ivo Peron
Nunca produzimos tanto. Nunca estivemos tão conectados. Nunca tivemos acesso a tantas informações sobre saúde emocional. Ainda assim, cresce de forma silenciosa e persistente um fenômeno que a estatística não explica por completo: pessoas que funcionam perfeitamente por fora, mas adoecem por dentro.
Elas acordam cedo, trabalham, cumprem metas, sustentam famílias, lideram equipes. São socialmente funcionais. Porém, carregam um cansaço que não passa com descanso, uma ansiedade que não se resolve com organização, um vazio que não se preenche com conquistas. Não estão em colapso, mas também não estão em paz.
A ciência tradicional tem ferramentas valiosas para lidar com transtornos reais, patologias claras, quadros agudos. Medicamentos são indispensáveis em muitos casos, e negar isso seria irresponsável. O problema começa quando o sofrimento persiste por anos, apesar de todos os protocolos corretos terem sido seguidos. Quando o sintoma muda, mas a dor permanece. Quando se trata o efeito, mas nunca se alcança a causa.
Na prática clínica, observo algo que raramente entra nas discussões públicas: há dores que não nascem no cérebro, nem apenas na história emocional do indivíduo. Elas surgem de um desalinhamento mais profundo entre mente, emoções e aquilo que muitos evitam nomear, mas todos sentem: a dimensão espiritual da existência.
O ser humano não é apenas um organismo biológico que reage a estímulos. Ele é consciência. É campo emocional. É energia em relação com outros campos, ambientes e histórias invisíveis. Quando essa dimensão é ignorada, a pessoa pode até continuar funcionando, mas passa a viver em estado de alerta constante, irritabilidade crônica, perda de sentido e conflitos repetitivos especialmente nos relacionamentos.
É por isso que vemos casais que se amam, mas não conseguem conviver; profissionais competentes que perdem o brilho; pessoas saudáveis que adoecem sem causa aparente. Não se trata de fraqueza, nem de falta de força de vontade. Trata-se de um sistema interno em desequilíbrio.
Relacionamentos, por exemplo, não adoecem apenas por falhas de comunicação. Eles entram em colapso quando a ordem natural entre os indivíduos é ignorada, quando instintos profundos são reprimidos ou distorcidos, e quando feridas emocionais e espirituais não reconhecidas passam a comandar escolhas inconscientes. O conflito visível quase sempre é apenas a ponta do iceberg.
Vivemos, portanto, uma epidemia peculiar: pessoas altamente adaptadas ao mundo externo e profundamente desconectadas de si mesmas. A sociedade aplaude o desempenho, mas não escuta o silêncio interno. E o preço dessa desconexão aparece em forma de ansiedade, depressão, vícios, rupturas afetivas e um sentimento difuso de que “algo está errado”, mesmo quando tudo parece certo.
Talvez o avanço real da saúde emocional neste século não esteja em criar novos rótulos, mas em ampliar a escuta. Integrar ciência e espiritualidade com maturidade. Reconhecer que curar não é apenas silenciar sintomas, mas restaurar sentido, identidade e alinhamento interior.
Enquanto tratarmos apenas pessoas quebradas, continuaremos ignorando milhões de pessoas que funcionam mas sofrem. E essa, talvez, seja a mais perigosa forma de adoecimento do nosso tempo.
Ivo Peron
Escritor, fundador da Clínica Peron Hipnoterapia
professor de hipnose e palestrante
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