Por Ivo Peron
Nunca se falou tanto em saúde emocional. Ainda assim, cresce de forma silenciosa o número de pessoas que convivem com ansiedade persistente, cansaço profundo, desânimo constante, irritabilidade, confusão mental e uma sensação contínua de alerta, mesmo quando, externamente, a vida parece organizada. Trabalham, produzem, sustentam famílias e negócios, mas internamente sentem que algo está fora do lugar.
Durante décadas, o sofrimento humano foi analisado quase exclusivamente pelo viés psicológico ou químico. Esses fatores existem, são reais e, em muitos casos, indispensáveis ao tratamento. O problema surge quando essa leitura se torna única. O ser humano não é constituído apenas por pensamentos, comportamentos e reações biológicas. Emoções, ambiente, relações e dimensões não visíveis exercem influência direta sobre o equilíbrio interno.
Nem todo sofrimento nasce de um trauma evidente ou de um problema atual. Muitos quadros se constroem ao longo do tempo, a partir de acúmulos internos não resolvidos: emoções reprimidas, pressões constantes, conflitos ignorados, perdas não elaboradas e uma desconexão progressiva de si mesmo. Quando esses sinais são tratados apenas como algo a ser silenciado e não compreendido o alívio costuma ser temporário, e o sofrimento retorna, muitas vezes de forma mais intensa.
No consultório, é comum encontrar pessoas que relatam uma ansiedade que não se encaixa nos padrões clássicos, um cansaço que não melhora com o descanso ou uma sensação persistente de estar deslocado da própria vida. Em parte desses casos, não se trata de patologia, mas de uma sensibilidade emocional ampliada, de uma percepção intensa do ambiente e das pessoas ao redor, somada a uma sobrecarga interna que não encontra espaço de compreensão.
É nesse ponto que a espiritualidade precisa ser abordada com maturidade e responsabilidade. Espiritualidade não se opõe à saúde emocional; ela a amplia. Reconhecer que existe uma dimensão invisível influenciando emoções, pensamentos e estados internos não é negar a ciência, mas admitir que o ser humano é mais complexo do que modelos reducionistas costumam considerar.
Alguns sofrimentos persistem justamente porque suas origens não são apenas psicológicas. Há pessoas com sensibilidade natural elevada, muitas vezes relacionada à mediunidade não reconhecida ou não integrada de forma equilibrada à vida. Quando essa condição é ignorada, reprimida ou mal interpretada, o resultado pode ser medo constante, confusão interna, sensação de inadequação e sofrimento prolongado.
Medicação: quando é necessária e quando passa a tratar apenas sintomas
Para evitar distorções, é importante deixar claro: medicações químicas têm seu valor e sua função. Elas são fundamentais em quadros verdadeiramente patológicos, em surtos agudos, transtornos graves e situações em que há risco real à integridade do indivíduo. Negar isso seria irresponsável.
No entanto, a prática clínica também revela outra realidade: há pessoas que fazem uso contínuo de medicação por anos, sem que o problema de fundo seja efetivamente resolvido. Nesses casos, o medicamento pode estar atuando apenas no controle dos sintomas, enquanto a causa real do sofrimento permanece intocada.
Quando, após longos períodos de tratamento medicamentoso, o indivíduo segue ansioso, deprimido, esgotado ou emocionalmente desconectado, é necessário questionar se o olhar terapêutico não ficou restrito demais. Tratar sintomas sem investigar causas aprofunda a dependência do controle químico e posterga a verdadeira reorganização emocional, mental e espiritual.
Isso não significa abandonar a medicação, mas ampliar o olhar. Um tratamento eficaz não exclui nenhuma dimensão do ser humano; ele integra. Há casos que pedem estabilização química, sim, mas também pedem escuta profunda, reorganização interna, revisão de padrões emocionais, alinhamento familiar, mudança de ambiente e, em alguns casos, compreensão da dimensão espiritual envolvida.
Outro fator frequentemente negligenciado é o impacto do ambiente. Relações desgastantes, pressões familiares, ambientes profissionais tóxicos e rotinas emocionalmente exaustivas afetam diretamente o estado interno. Assim como o corpo reage a ambientes insalubres, a mente e as emoções respondem a campos constantes de tensão, mesmo quando não há conflitos explícitos.
Cuidar da saúde emocional não é eliminar sintomas a qualquer custo. É aprender a escutá-los. Sintomas são sinais claros de que algo precisa ser revisto, compreendido ou integrado. Quando tratados apenas como inimigos, tendem a retornar sob novas formas.
Vivemos uma época que valoriza desempenho, produtividade e aparência de controle, mas pouco ensina sobre consciência emocional e espiritual. O resultado é uma sociedade funcional por fora, mas esgotada por dentro. Recuperar o equilíbrio passa por reconhecer que sentir não é fraqueza, perceber não é exagero e olhar além do visível é inteligência.
Talvez o verdadeiro avanço na saúde emocional esteja em ampliar o olhar, e não em reduzi-lo. Enquanto insistirmos em explicar o ser humano apenas pelo que se vê, continuaremos prolongando dores que pedem, antes de tudo, compreensão.
Por:
Ivo Peron
Especialista em Saúde Emocional
Hipnoterapeuta | Professor de Hipnose | Palestrante
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