
Por Ivo Peron
Não é apenas o que os pais dizem que forma um filho. É, principalmente, o que transmitem sem palavras. Emoções não resolvidas, medos silenciosos, crenças herdadas e padrões inconscientes atravessam gerações com mais força do que qualquer discurso educativo.
Pais não educam apenas pelo que ensinam conscientemente. Educam pelo campo emocional e espiritual que sustentam dentro de casa.
Grande parte dos pais com mais de 40 anos foi criada em um modelo rígido, emocionalmente contido e pouco afetivo. Muitos cresceram com disciplina, mas com escassez de acolhimento emocional. Essa geração carrega, mesmo sem perceber, a sensação de que “faltou amor”. E, na tentativa de não repetir essa dor, passou a criar seus filhos priorizando afeto, proteção e presença.
O movimento é legítimo. O problema surge quando o amor vem desacompanhado de autoridade emocional.
A geração atual cresce cercada de cuidado, mas, muitas vezes, sem limites claros, sem sustentação emocional firme e sem referências estruturantes. O resultado tem sido uma geração mais distante da família, com dificuldade de tolerar frustrações e emocionalmente mais frágil diante da vida.
Amor sem direção gera insegurança. Autoridade sem afeto gera medo. O equilíbrio entre ambos é o que sustenta o desenvolvimento saudável.
Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer algo que muitos pais ainda não compreenderam: as crianças que nascem após os anos 2000 apresentam uma sensibilidade emocional e espiritual muito mais acentuada. Cada novo ciclo nasce com maior capacidade de percepção, intensidade emocional e consciência ampliada. Isso não é romantização — é observação clínica e comportamental.
Antigamente, um recém-nascido levava dias para abrir os olhos ao mundo. Hoje, muitos parecem chegar atentos, responsivos, quase como se estivessem “acordados” desde o início. Não é apenas desenvolvimento biológico. É sensibilidade.
Essas crianças percebem ambientes, emoções e tensões que os adultos muitas vezes ignoram. Quando crescem em lares emocionalmente desorganizados, mesmo que sem conflitos explícitos, sentem-se sobrecarregadas. E, diante da ausência de escuta real, buscam refúgio nas telas, que ocupam o espaço que deveria ser preenchido pela presença familiar.
Aqui surge uma pergunta incômoda, mas necessária:
os pais estão realmente preparados para compreender essa nova geração?
Outro ponto que exige maturidade é a forma como rotulamos as crianças. Muitas recebem diagnósticos precipitados quando, na verdade, apresentam uma hipersensibilidade emocional e energética elevada. Isso não significa negar patologias reais — elas existem e precisam de acompanhamento adequado. Mas também não significa ignorar que algumas crianças sentem demais, percebem demais e reagem a um mundo emocionalmente caótico.
Nem toda criança inquieta está doente. Algumas estão apenas reagindo a ambientes adoecidos.
Espiritualmente, a estrutura familiar carrega um peso profundo. Pai, mãe e filho formam um campo de influência direta. Palavras, gestos, ausências e posturas não ficam no ar — ficam registradas. Bênçãos fortalecem. Desarmonias fragilizam. E tudo isso ecoa na vida adulta.
Os pais não transmitem apenas valores. Transmitem estado emocional. Transmitem equilíbrio ou conflito. Presença ou vazio.
A pergunta que permanece não é se estamos criando filhos com amor. É se estamos criando filhos com estrutura emocional suficiente para sustentar a própria vida.
Educar não é controlar. Também não é apenas acolher.
Educar é sustentar.
E isso começa dentro de cada pai e de cada mãe, muito antes de qualquer método, escola ou tecnologia.
Ivo Peron
Escritor, fundador da Clínica Peron Hipnoterapia
professor de hipnose e palestrante
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