
JR Diário
A guerra entre Ucrânia e Rússia, iniciada em fevereiro de 2022, permanece como um dos conflitos armados mais complexos e prolongados da atualidade, com impactos humanitários, políticos e sociais em escala global. Em meio a esse cenário, cidadãos de diversos países têm se voluntariado para atuar ao lado das forças ucranianas — entre eles, o quatiguaense Marlon Rouiller Vaz, de 40 anos.
Natural de Quatiguá, no Norte Pioneiro do Paraná, Marlon embarca no ainda este mês para a Ucrânia, onde atuará como voluntário na guerra contra a Rússia. Funcionário público da Prefeitura de Quatiguá, ele solicitou e obteve licença de dois anos para concretizar um sonho pessoal: integrar um exército e vivenciar a rotina militar em um cenário real de combate.
Despedidas antes da partida
Nos dias que antecedem a viagem, Marlon já iniciou a despedida de amigos e familiares, muitos deles moradores de Quatiguá e da região, que acompanham com atenção e apreensão sua decisão. Segundo ele, o momento tem sido marcado por emoção, apoio e manifestações de carinho por parte das pessoas próximas.
Como gesto simbólico e de respeito à sua trajetória profissional no serviço público, Marlon fez questão de se despedir pessoalmente da prefeita de Quatiguá, Izilda Rodrigues, que lhe desejou boa sorte na missão e expressou o desejo de que ele retorne ao município após os dois anos de contrato, com o objetivo pessoal realizado e em segurança.
Da decisão ao embarque
O desejo de seguir carreira militar acompanha Marlon desde a infância. Sem ter conseguido ingressar no Exército Brasileiro, ele viu na guerra da Ucrânia a possibilidade de realizar esse objetivo. A decisão de se voluntariar teve início após contato com um amigo, que o incentivou a buscar informações sobre o alistamento internacional.
O processo começou por meio de cadastro em site oficial. Em maio de 2025, Marlon foi contatado para entrevista e deu início à preparação da documentação. Durante esse período, enfrentou dificuldades para emissão do passaporte devido a inconsistências em sua situação como reservista, o que exigiu novo trâmite burocrático. Após a regularização, recebeu a carta-convite, necessária para a passagem pela alfândega, e confirmou o envio da passagem aérea aos recrutadores.
A viagem será realizada com saída de São Paulo, até a chegada à Ucrânia. A passagem foi custeada integralmente por Marlon, ao custo aproximado de R$ 4 mil apenas na ida.
Treinamento, contrato e motivação
Ao chegar ao país, o voluntário passará por treinamento entre quatro e nove semanas. Após essa etapa, será designado para um batalhão ainda indefinido. Marlon afirmou que tentará um “contrato” com duração de dois anos, junto ao Ministério da Defesa da Ucrânia.
Além da realização pessoal, Marlon destaca que a decisão também é motivada pela solidariedade ao povo ucraniano. Ele afirma não ter medo da guerra nem das possíveis consequências do conflito, declarando estar consciente dos riscos envolvidos.
Ligação com a história de Quatiguá
Marlon também relembra que, desde a infância, ouviu histórias sobre conflitos armados ocorridos em Quatiguá. O município foi palco de uma importante batalha durante a Revolução de 1930, nos dias 12 e 13 de outubro, quando tropas revolucionárias gaúchas enfrentaram forças paulistas em um confronto decisivo para o desfecho da revolução que levou Getúlio Vargas ao poder.
Um obelisco localizado na Praça Expedicionário Eurides do Nascimento marca o local da batalha e preserva a memória dos combatentes, com relatos históricos que apontam a existência de ossos de mortos sob a estrutura.
Agora, quase um século depois, a história de Quatiguá volta a se conectar simbolicamente com um conflito armado internacional, por meio da decisão de Marlon Rouiller Vaz, que parte levando consigo as expectativas, os sentimentos e a atenção de toda a comunidade quatiguaense.