Cultura

UM CARNAVAL PARA A DIVERSIDADE, UM CARNAVAL PARA MÃE CARMEM

James Rios
Carnavalesco do GRECES Acadêmicos Capiau
Doutorando em Estudos Literários (UEL)


São dezenove horas e vinte e minutos do início de escrita deste artigo, após três vãs
tentativas em dias anteriores. É um sábado nublado, de temperatura amena. Acabo
de chegar do barracão onde estamos trabalhando na produção do desfile da Escola
de Samba Acadêmicos Capiau. O enredo é sobre “diversidade” em múltiplas
perspectivas: gênero, raça, etnia, religião, etarismo. Sobre minha mesa, uma foto
de Mãe Carmem de Xangô. No verso, o registro: “Carnaval de 1983, Humildes da
Favela”. Lá estava ela, Carmem Craveiro, uma jovem mulher, desfilando como
baiana no Carnaval de Rua de Jacarezinho.
Completou setenta anos no último 25 de dezembro, em pleno Natal. Neste dia,
estive com ela em sua casa. Passamos a tarde juntos. Conversamos, rezamos e
cantamos. Com a saúde debilitada em face de uma doença agressiva, perguntou-
me, em algum momento, com sua voz já ofegante: “Hein, ogã, será que o tri
(campeonato) vem? Eu que não quero perder hein!”
. Ela falava da Capiau. Estava
muito animada para o desfile, apesar de seu quadro de saúde. Não demorou muito
para me cobrar: “E minha roupa, tá pronta já? Não vou descer como marmota,
hein”
. Tranquilizei-a. Disse a ela, como nos anos anteriores, para não se preocupar,
pois seu lugar no carro abre alas estava certo e que o figurino também.
Ela faleceu no último domingo, 7, em sua residência, na presença de sua família de
santo. Recebi a notícia em Londrina durante as funções no terreiro Ilé Iwure, minha
egbé. Foi difícil o trajeto até aqui para o cumprimento de seus ritos fúnebres. No
velório, nenhuma autoridade política. Na mídia, nenhuma nota de pesar, nenhuma
crônica. Nenhum decreto de luto por qualquer que fosse a instituição. Nenhum
reconhecimento oficializado para uma mulher preta que há décadas manteve uma
roça de candomblé, com atividades que extrapolaram os contornos de seus ritos
religiosos. É dessa forma que partem muitos dos nossos: ao som do silêncio do
racismo estrutural.
A trajetória de vida, bem como a passagem a ialorixá ao Orum ratificam a
necessidade e urgência de um enredo como este proposto pela Acadêmicos
Capiau. É preciso cantar a existência de todes aqueles que, mesmo à sombra do
anonimato social, exercem com firmeza suas lideranças em prol da alteridade e do
bem-estar do outro. Mãe Carmem carregava consigo muitas interseccionalidades:
era mulher, negra, sacerdotisa do candomblé e idosa. Reconhecia-se facilmente
no outro apesar das diferenças. Confessou-me, tempos atrás, a vergonha e tristeza
que a acometeram quando uma pessoa, em uma cadeira de rodas, chegou para
uma festa de Xangô e seu terreiro não tinha acessibilidade. Tratou logo de juntar
suas economias para proporcionar este acesso.
Era uma mulher também preocupada com as questões sociais e culturais da
cidade. Não havia festa de Cosme e Damião que não considerasse as crianças da
comunidade da Pedreira –
“extensão de seu terreiro”, dizia ela. Procurava se fazer
presente nos principais eventos e discussões sobre políticas culturais da cidade.
Quando menos se esperava, chegava ela toda paramentada: bata africana, torso
na cabeça, guias no pescoço e o sorriso no rosto pronta para dar e receber um
abraço. Sua última aparição foi no Sarau da Negritude, na Praça São Benedito, nas
atividades alusivas ao mês da Consciência Negra. Estava muito feliz e deixou
plantada uma gameleira para as gerações futuras – seu último ato público.
O desfile da Acadêmicos Capiau será no dia 11 de fevereiro sem sua presença
física. Mulher ancestral, Mãe Carmem terá sua cadeira no carro abre alas que
coincidentemente homenageará Xangô, seu orixá. Celebraremos, neste dia, sua
vida, sua obra, bem como a existência de todes aqueles que, de uma forma ou de
outra, foram e continuam sendo invisibilizados por uma sociedade que insiste em
não considerar as diferenças. Termino este texto fitando novamente a foto dessa
mulher que em vida me inspirou e com sua morte material me ensinou que, no final
das contas, no apagar das luzes,
“tudo o que nóis tem, é nóis”
– como reza o verso
de Emicida. Por tudo isso, um carnaval para a diversidade é um carnaval para Mãe
Carmem.

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